Santo Natal

Os Padres Carmelitas Descalços

desejam a todos os que frequentam

a Igreja do Carmo 

 um Santo Natal

004

«Ah, se o teu coração pudesse tornar-se presépio,

Deus mais uma vez, nesta terra,

tornar-se-ia criança»

(Angelus Silesius)

«O divino Pequeno desta vez vai nascer,

não no presépio, mas na minha alma,

nas nossas almas,

é o Emanuel, o “Deus connosco” (…)

Oh! se eu pudesse ser tão pequena como Ele

e crescer a seu lado,

colocando os meus passos

no rasto dos seus divinos passos

(Santa Isabel da Trindade)

P. Eugénio Maria do Menino Jesus (III)

p-maria-eugenio-7

Padre Eugénio Maria, religioso Carmelita

A chamada ao Carmelo, que remonta ao seu primeiro encontro com Santa Teresa do Menino Jesus, atingiu inteiramente o jovem Henrique Grialou, nessa tarde de 13 de Dezembro de 1920 quando lia o compêndio da vida de São João da Cruz.

Aquele que tinha «optado por ser sacerdote a sério», escolherá o Carmelo «com todas as suas forças e todo o seu coração» apesar da oposição da sua mãe, «foi nisto que Jesus me quis golpear porque era o ponto mais sensível».

 Afirma sem ambiguidade: «Partirei daqui para o noviciado dos Padres Carmelitas em Fontainebleau. A chamada de Deus parecia-me irresistível e, apesar de todos os obstáculos, pareceu-me que não deveria tardar mais».

O primado de Deus, transcendente e próximo, adorado e amado, é o eixo da vida do Padre Eugénio Maria. A união transformante é o objectivo fundamental da vida espiritual: «Esta união corresponde efectivamente aos desejos mais queridos do mesmo Deus. Deus-Amor tem necessidade de se expandir e nisto encontra a sua alegria e uma alegria à medida do dom que faz. A beatitude infinita de Deus tem a sua fonte no dom perfeito de Si-mesmo que faz gerando o Verbo e produzindo o Espírito Santo. Qual não será pois a alegria de Deus quando encontrar uma alma que Lhe deixa toda a liberdade e na qual se pode expandir segundo toda a medida do seu desejo». Afirma que o baptizado deve «fazer valer os direitos de Deus».

A vida de dependência vivida no Carmelo traduz-se para ele no desejo de reproduzir a Imagem de Cristo, Filho, primogénito de muitos irmãos (Rm 8, 29). Desde o despertar consciente da sua fé até à sua agonia, em que pronuncia estas palavras que resumem todo o seu itinerário: «Jesus, amo-Vos. Parece-me que Vos amo perfeitamente e que me pareço a Vós», não fez senão crescer no conhecimento do mistério de Cristo, ao mesmo tempo homem e Deus, o Verbo feito carne, o único Mediador entre Deus e nós. Desenvolve isto na sua obra maior: Quero ver a Deus.

Maria, a «toda Mãe», está no coração da sua experiência de Deus: «Não podemos construir uma teologia mariana firme e precisar as verdades senão à luz de Jesus Cristo. A história ensina que os dogmas relativos ao Filho e à Mãe se explicitam ao longo dos séculos ao mesmo tempo. Assim para estudar os privilégios e a função de Maria, não poderíamos fazer melhor do que atribuir-lhe os três primados de dignidade, de eficácia e de finalidade que Deus concedeu a Cristo e que Ele certamente participou a sua Mãe»

A exemplo dos Reformadores do Carmelo, experimenta, desde o princípio da sua vida religiosa, «a oração (como) o sol e o centro de todas as suas ocupações da jornada. Temos a impressão cada noite que verdadeiramente não fizemos nada de importante. A oração é a minha grande consolação aqui e faz-me esquecer tudo o resto». Em todo o caso, a sua vida será inteiramente oração. A sua fidelidade ao «exercício da fé» ou «colóquio amoroso» nunca desfalecerá. No seu leito de morte, nas provações dos seus sofrimentos e da sua agonia, voltará a dizer: «Deus está ali. Vou fazer oração». Insiste muito na oração comunitária. Não apenas pelo cuidado da fidelidade mas também por convicção de que ela é, em si, missionária. Ela manifesta que a Igreja é comunhão. Ela enxerta-se neste diálogo ininterrupto entre Cristo Esposo e a Igreja Esposa.

Recorre à Palavra de Deus para amar melhor, conhecer e unir-se a Deus. Quando a teologia não possui termos para exprimir a experiência de Deus, a Escritura entrega-lhe a linguagem adequada. Como para João da Cruz, a sua meditação da Escritura prepara e alimenta a sua oração.

A sua ascese é totalmente guiada pela oração, para tornar a vontade conforme à de Deus. O Padre Eugénio Maria conhece a pureza de Deus e descobre, à luz do seu Espírito, a fraqueza humana. Ama uma e outra com o mesmo amor. A sua ciência prática não é feita unicamente da lógica do pensamento, mas também do amor compassivo. E se nos seus tratados é sobretudo a luz poderosa e um pouco rude que brilha, nos contactos com as pessoas, é a caridade amorosa que desborda. Os seus contemporâneos afirmam-no. Sabe que a «sua vocação é teologal» e que foi feito «para conduzir as almas a Deus».

Como Santa Teresa que se sentia antes de tudo «filha da Igreja», não há para o Padre Eugénio Maria santidade senão para a Igreja. Pois «o mistério da Igreja nos revela o desígnio do amor divino, o seu movimento; entrega-nos o segredo da política divina no mundo, a finalidade da sua acção nas almas, e da sua actividade exterior pelos acontecimentos. Este dogma diz-nos que temos um lugar a ocupar, uma missão a cumprir no Corpo Místico de Cristo.

É neste mesmo quadro que devemos situar a sua acção em favor dos carmelitas como carmelita, definidor, visitador apostólico e assistente, ou seja, como director espiritual. Os carmelitas e as carmelitas estão na Igreja ao serviço de um mesmo projecto. A distribuição das funções dentro da mesma família torna-os complementares e unidos. Compreendeu profundamente o pensamento de Santa Teresa de Ávila quando queria que os Carmelitas realizassem no terreno o zelo apostólico das carmelitas. Inquietou-se com os desejos expressos pela Santa Sé nos anos depois da guerra de ver as carmelitas contemplativas assumir funções apostólicas sócio-educativas. Dirigiu-se então, com o zelo de Elias e o amor de Teresa de Ávila à Igreja, a fim de defender o carisma na sua integridade.

O Padre Eugénio Maria expõe a sua própria experiência mística, nomeadamente na sua obra Quero ver a Deus. Para o efeito, bebe no ensinamento de Teresa de Jesus, de João da Cruz e de Teresa do Menino Jesus. Recorre também à teologia e às ciências humanas, enriquecendo assim a espiritualidade do Carmelo com novos contributos. Criou uma teologia espiritual para a nossa época. Aprofundou a função do Espírito Santo na vida espiritual, nomeadamente através dos seus dons, o que lhe permite não apenas explicitar a doutrina do Carmelo, mas também de a enriquecer e colocar à disposição de todos os baptizados. Relaciona o lugar da Virgem Maria na obra da salvação com a experiência espiritual da mesma. Explicita as relações entre a fé e a contemplação, entre a inteligência (e outras faculdades do homem) e a contemplação. Desenvolveu a dimensão prática da contemplação.

A ligação contemplação-acção é profundamente carmelitana. Vivida por Elias e praticada ao longo dos séculos, coloca-se, na experiência e doutrina de Santa Teresa e São João da Cruz, no coração da união transformante. É aqui que o Padre Eugénio Maria compreende esta ligação, toma posse dela, aprofunda-a e enriquece-a. Descola da sua teologia e explica-se pelo duplo movimento que se realizou em Cristo: filial para o Pai e fraterno para os homens.

Fez da arte de dirigir as almas um apostolado específico e privilegiado do Carmelo. O capítulo sobre a direcção espiritual em Quero ver a Deus parece muito autobiográfico. Os conselhos espirituais compilados nas suas obras e na sua vida provam-no. Pratica a direcção espiritual como exercício de um ministério teologal e apoio para dirigir as pessoas, é preciso ser santo ou vir a sê-lo: «Ser santo, exercer a maternidade espiritual, ser apóstolo, não é fazer milagres, é estar cheio da graça de Deus nas faculdades, é manter esta plenitude por meio de actos apoiados…».

Enfim, o contemplativo-apóstolo diagnostica as profundas necessidades do homem contemporâneo: tem sobretudo necessidade de contemplação. «Efectivamente, sejam quais forem as profissões que se exerçam, as obras a realizar, o dever que se impõe a cada um é de permanecer fiel a esta atitude fundamental do olhar de fé contemplativa (…). A fé contemplativa, fruto da oração, que outrora parecia reservada aos privilegiados, torna-se agora necessária a todos os cristãos que querem manter de maneira inquebrável a sua fidelidade, e ser apoio para os irmãos (…). Para se apoiar na rocha da fé, e resistir aos assaltos interiores e exteriores que sofrem, o conjunto dos homens tem necessidade da experiência de Deus».

Foi qualificado como um precursor do Vaticano II e da sua chamada universal à santidade bem como da promoção da vida cristã laical. Acrescentamos uma nota: o fundador do Instituto secular Notre-Dame de Vie – a sua obra específica que lhe permite propor um meio que reúne a interioridade mais profunda e a disponibilidade apostólica mais total, no seio do inesgotável carisma do Carmelo teresiano – coloca à disposição de todos não somente a santidade, mas também e, sobretudo, a contemplação. Para ele a graça baptismal é uma semente de vida mística.

Oração do P. Eugénio Maria do Menino Jesus (II)

p-eugenio-maria-2

Ó Espírito de Amor…

Dai a cada uma das nossas almas,

esta beleza, esta grandeza,

que sonhastes para elas

desde toda a eternidade.

Nós Vo-lo pedimos humildemente,

ó Pai Fonte de toda a luz,

ó Jesus nosso Irmão, nosso Mestre, nosso Rei,

ó Espírito Santo, Amor substancial,

Arquitecto e artesão dos desígnios de Deus.

Realizai inteiramente este pensamento de Deus.

Que nenhuma centelha deste amor que nos destinais

fique inactiva, mas desça sobre nós.

Uni-nos a Vós,

Entrevei já toda a nossa participação na vossa vida trinitária.

Nela encontraremos a nossa felicidade, e sei que Vós também

encontrareis nela uma glória, secundária é verdade,

mas, na qual, sabereis entretanto comprazer-Vos.

Eis a oração que fazemos,

ó Santíssima Trindade.

É para vossa glória, vossa alegria,

para a expansão da vossa vida trinitária.

Assegurai a sua eficácia por uma nova infusão do Espírito Santo.

Que cada dia, cada instante da nossa vida

marque um crescimento da vossa infusão.

E quando dominardes sobre cada um de nós

daremos testemunho de Vós

ali onde Vós nos enviais, como Vós nos enviais.

E neste apostolado do testemunho

encontraremos a nossa razão de ser,

ó Pai, ó Filho, ó Espírito Santo.

Considerai o que fizestes,

e realizai inteiramente a vossa obra em nós,

e por nós, em todos aqueles que introduziremos

no mesmo desígnio de amor,

na vossa vida trinitária,

junto de Vós e em Vós.

Amém.

Pentecostes de 1963, extracto da homilia.