Frei Jean Thierry do Menino Jesus e da Paixão (1982-1906)

Jean Thierry 2

BIOGRAFIA

 DE

 FREI JEAN-THIERRY EBOGO

DO MENINO JESUS E DA PAIXÃO

 RELIGIOSO CARMELITA DESCALÇO (1982-2006)

 SERVO DE DEUS

 Jean-Thierry nasceu a 4 de Fevereiro de 1982 em Mfou Awae, Camarões, a 15 quilómetros da nossa primeira Missão nos Camaraões – Nkoabang, segundo filho de oito irmãos. A mãe é professora das Escolas maternas.

 O pai é guarda de prisão e, por este seu trabalho será transferido mais vezes pelas diversas localidades dos Camarões, do Centro, ao Sul, ao Norte do país.

 Jean-Thierry seguirá a família nestas deslocações.

 Baptizado a 27 de Maio de 1982, recebeu a Primeira Comunhão a 29 de Maio de 1994 e o sacramento do Crisma a 18 de Fevereiro de 1996.

 Em Junho de 1982 obtém o Bacharelato série C e pede para entrar na nossa comunidade de Nkoabang, onde passa quase dois anos como aspirante e postulante.

 Em Junho de 2004 é aprovado para o Noviciado em Burkina Fasso com mais dois companheiros. Enquanto fazem todos os preparativos para a partida, uma dor na perna vem perturbar a sua vida. Pensa-se que foi picado por algum insecto e aplicam-lhe pomadas. Mas o mal não desaparece, antes aumenta sempre mais. Levam-no a um ortopedista que, depois de alguns exames, diagnostica um osteosarcoma. O médico propõe amputar a perna o mais rápido possível.

 Começam as consultas entre Camarões e Itália até encontrar resposta. Por fim, encontram uma cirurgião de oncologia que lhe aplica a quimioterapia preventiva, para que a operação seja bem sucedida.

 Jean-Thierry, embora com dor, dá o seu consentimento para a amputação, dizendo para consigo: «Se este meu sacrifício for para o bem da missão carmelita nos Camarões, aceito-o de livre vontade. O meu único desejo é ser religioso carmelita, se for possível».

 Depois da amputação da perna e da quimioterapia que lhe seguiu, parecia que tudo estava resolvido.

 Puseram-lhe uma prótese e, depois de algum tempo, a sua vida torn-se quase normal.

 Por isso, em Agosto de 2005 tomou-se a decisão, com o conselho do cirurgião que o operou, de trazer Jean Thierry para Milão, na Itália, a fim de prosseguir a sua vida religiosa e os estudos de filosofia e teologia.

 Enquanto concluíamos o processo das práticas burocráticas, o nosso jovem camarunense começa a sentir dores nas costas. A viagem para Itália foi para Jean-Thierry muito cansativa por causa das dores.

 Chegado a Itália, os médicos constatam que o tumor se espalhou pelo sue corpo. Os especialistas disseram-nos que a explosão do mal é semelhante a uma leucemia fulgurante.

 Começa então no Hospital civil de Legnano, onde a cintigrafia e a TAC diagnosticam que o tumor já invadiu muito do seu corpo, o Calvário que durará até 5 de Janeiro passado quando às 0, 15 da vigília da Epifania, depois de ter participado na Santa Missa, celebrada no seu quarto pelo P. Tomás e as orações pelos doentes e os moribundos, Frei Jean-Thierry do Menino Jesus e da Paixão, entrega o seu espírito ao Pai.

 Disse um calvário sofrido por Jean-Thierry, mas também um caminho de luz para ele e para os que o visitaram e estiveram breves momentos ou longas horas do dia e da noite à sua cabeceira.

 Posso afirmar verdadeiramente que todos os que se encontraram com ele nestes quatro meses de doença, primeiro em Legnano, depois no IPO de Candiolo, no qual se depositara muita esperança, nos 10 dias de Troffarello, em casa das Irmãs Camilianas e, por fim, novamente em Legnano na terapia intensiva dos cuidados paliativos, ficaram impressionados pela sua serenidade com que suportava o mal que lhe estava a destruir o corpo, pelas suas pacatas, sempre pertinentes respostas que mostravam uma maturidade e uma sabedoria que não podiam vir só da sua idade juvenil.

 Haveria muitos testemunhos para contar.

 Desde os primeiros dias da sua recuperação no Hospital de Legnano, a Doutora Annarita Braga, numa manhã, quando cheguei ao hospital, disse-me: “Quem nos trouxestes aqui para o Hospital?».

Pensando que fosse alguma coisa de desagradável, disse: «É um jovem camarunense…» e antes de terminar a frase, disse-me: «É um santo! Não é possível sofrer dores atrozes daquela maneira».

 Veio depois a partida para Candiolo (Turim), para o centro especializado para o osteosarcoma.

 Apesar do cansaço da longa viagem, da dor sempre presente e forte e o grave perigo de morte, chegados àquele centro, depois de cerca de uma hora de permanência naquele hospital, Jean-Thierry disse-me com um sorriso que mostrava toda a sua gratidão: «Agora sei que me trouxeram para um lugar omde farão tudo para me curar».

 Estava firmemente convencido de que ia ser curado para poder servir durante muitos anos a Igreja no Carmelo.

 Passado mais de um mês da terapia intensiva, em que parecia que o mal devia regredir, chegou um dia de Novembro em que a equipa médica de Candiolo, pela boca do Professor Grignani, nos disse que infelizmente as células malignas tinham progredido mais rapidamente do que as células benignas e que a metástase tinha invadido as costas e o fígado.

Os três médicos presentes estavam visivelmente a sofrer com isto. Falaram primeiro comigo e depois disseram as mesmas coisas ao Jean-Thierry.

 Fiquei impressionado, também daquela vez, com a compostura e a serenidade com que Jean-Thierry ouviu e aceitou aquele veredicto. E àqueles médicos, ainda visivelmente a sofrer, Jean-Thierry disse: «Obrigado por tudo aquilo que fizeram por mim».

Era o dia 14 de Novembro de 2005.

Voltou novamente para o Hospital de Legnano para a sala dos cuidados paliativos. A partir daquele dia Jean-Thierry pôs toda a sua confiança de cura em Deus.

 Muitos amigos de Candiolo e de Turim continuaram a vir visitá-lo e a estar com ele longas horas do dia e da noite. A todas aquelas pessoas (a quem agradecemos sincera e reconhecidamente) juntaram-se muitas outras pessoas de Legnano.

 Jean-Thierry tinha manifestado o vivo desejo de fazer a sua Profissão religiosa para ser carmelita teresiano com todas as aprovações e para sempre.

 Pedido esclarecimento à Casa Geral de Roma, depois de ter recebido a acta da Comunidade dos Camarões sobre o caminho de formação de Jean-Thierry, com o seu pedido para ser admitido à Profissão religiosa e depois de ter recebido a licença da Casa Geral de Roma para a Profissão religiosa, na tarde de 8 de Dezembro de 2005, solenidade da Imaculada, no seu quarto, revestido com o hábito religioso e a capa branca do Padre Jorge Perruzzoti, superior das duas casas dos Camarões, fez a sua Profissão religiosa com o nome de Jean-Thierry do Menino Jesus e da Paixão.

Foi uma cerimónia muito simples, mas muito bela e comovedora. Estava também presente a mãe de Frei Jean-Thierry, chegada uns dias antes dos Camarões, a qual, participou, com lágrimas de comoção e de alegria, na imensa alegria do seu filho, num dos dias mais belos e significativos da sua vida.

Foi o seu último triunfo cá na terra: com a Imaculada, com Santa Teresinha e todos os santos do Carmelo.

Depois de alguns dias em que Frei Jean-Thierry parecia novamente renovado, a doença retomou o seu caminho demolidor.

Um dia em que estava sozinho no seu quarto perguntei-lhe porque tinah desejado tão intensamente a Profissão religiosa. Porque, disse-me ele, o Senhor com a Senhora, me curará e eu quero ser carmelita para servir os meus irmãos e irmãs durante muitos anos na Igreja. E acrescenta: «Mesmo que me tivessem de amputar a outra perna, irei à Igreja em cadeira de rodas e ali no confessionário levarei muitas almas para o paraíso».

Perguntei-lhe então como podia ter a certeza de viver tantos anos. Respondeu-me que em criança tinha ouvido muitas vezes uma voz que lhe dizia que viveria muito tempo e que a sua missão na Igreja seria a de levar muitas almas ao Senhor através do confessionário.

Alguns dias depois daquela conversa, encontrei-me novamente a sós com Frei Jean-Thierry – quando chegava junto dele, as outras pessoas presentes, com fina delicadeza, saiam para o corredor – começamos a falar desta terra, mas também do céu.

Frei Jean-Thierry voltou a falar do seu desejo de servir a Igreja no Carmelo durante muitos anos, porque lhe parecia ser esta a sua missão. Respondi-lhe que poderia realizar a sua missão e, de modo mais eficaz e mais abrangente, também no Paraíso, como fizera Santa Teresa do Menino Jesus, a sua Padroeira.

Frei Jean-Thierry permaneceu calado com a minha resposta. Passaram três ou quatro minutos de silêncio embaraçado, depois calmamente, mas também com uma certa ansiedade que nunca tinha notado nele, respondeu-me: «Sim, o meu desejo seria o de servir durante muito tempo os meus irmãos, primeiramente aqui na terra».

Parou, durante alguns momentos, depois recomeçou, muito suavemente: «Mas se o Senhor quiser assim, aceito a sua vontade».

E, a partir daquele dia, vi quase sempre diminuir mais as suas forças físicas até à noite da sua passagem da terra para o céu.

Apesar disso, os últimos dias da sua vida terrena foram muito difíceis e dolorosos (a respiração tornava-se ofegante, a absorção punha-o num estado de pré-coma) mas estava sempre contente e enquanto podia, consciente e participante nas orações que rezávamos com ele.

Parecia então que só o Paraíso e tudo o que conduzia a ele, fossem as coisas que lhe interessavam.

Quantos testemunhos muito belos e significativos poderíamos aludir; espero bem que um dia possam ser escritos por aqueles que conviveram com ele, o conheceram e amaram nos quatro meses da sua estadia em Itália.

Posso dizer que todas as vezes que falava com ele ao telefone, à minha pergunta pela sua saúde, me respondia sempre assim: «Bem, muito bem, bastante bem». Como se tivesse que ser ele a dar coragem ao outros.

Frei Jean-Thierry do Menino Jesus e da Paixão, foste uma alma bendita cá na terra para todos aqueles que te conheceram e serás ainda mais bendito no Paraíso pela Missão que o Senhor te concedeu realizar: em favor dos jovens dos Camarões que desejavas trazer ao Carmelo, da Ordem Carmelita e de toda a Igreja.

 Superior da Província da Lombardia

 Gabriel Mattavelli

Novos Santos do Carmelo (V)

Homilia do Cardeal José Saraiva Martins Alençon e Lisieux, 12-13 de Julho de 2008, 150º aniversário de casamento dos Veneráveis Servos de Deus, Luís e Zélia Martin

O ENCANTO HUMANO DA SANTIDADE CRISTÃ

Celina…        «Ergue os olhos para a Pátria Santa

E verás em tronos de honra

Um Pai amado… Uma Mãe querida…

Aos quais deves a tua imensa ventura!…» (P 16, 5)

Caríssimos irmãos e irmãs,

 Quis começar esta reflexão com as próprias palavras de Teresa, que descrevem a atmosfera familiar na qual ela cresceu.

 A família, do século XIX até hoje

 Quando o céu se esvazia de Deus, a terra enche-se de ídolos. Já no século XIX, o dos Martin e no começo do século XX, desinteressamo-nos progressivamente do domínio da educação no seio da família, em proveito do campo sócio-económico. Charles Péguy, nascido cinco dias depois de santa Teresa, sublinhava-o, quase profeticamente: «Um filho cristão, escreve ele efectivamente numa das suas obras, não é senão um filho ao qual pusemos sob os olhos milhares de vezes a infância de Jesus» Nos ritmos e nas palavras quotidianas encontramos ainda reflexos inconscientes deste povo cristão «que dançava e cantava» e que «empalhavam as cadeiras no mesmo estado de espírito que esculpiam as suas catedrais». Portanto, não podemos dizer que o pequeno Charles entra na descrição do filho cristão caro ao Péguy adulto. À volta dele, no meio familiar e  escolar da sua infância, ninguém vive assim, com o olhar familiarmente e afectuosamente voltado para Jesus. Mas, para a família Martin, é o caso.

 Esta recusa da paternidade prossegue no século XX de maneira mais complexa, essencialmente na adesão aos modelos dos grandes totalitarismos, os quais desejavam substituir-se à família, confiando a educação ao Estado totalitário, comunista ou nacional-socialista. Esta abdicação, este eclipse da figura do pai, prolonga-se na sociedade de consumo, onde o carreirismo e a imagem tomaram o lugar da educação dos filhos.

 A educação é uma questão de testemunho.

 Sem longos discursos, sem sermões o Senhor Martin introduziu Teresa no sentido último da existência. Luís e Zélia foram educadores porque não tiveram o problema de educar.

 A família hoje: o amor doente na família

 No princípio do ano, um diário italiano (O Matutino de Nápoles») de segunda-feira 14 de Janeiro de 2008) publicava um artigo de Claude Risé, sob este título significativo: «O amor caiu doente na família».

 Caiu doente o amor, em particular caiu doente o lugar onde cada ser humano experimenta pela primeira vez o amor, ser amado e amar os outros […] Na família actual, os filhos, mais do que serem o objecto do amor dos pais, encontram-se em concorrência com muitas outras coisas.

 Uma família excepcional: o testemunho das filhas Martin

 Eis o testemunho das filhas Martin.

 «Aprouve a Deus rodear-me de amor toda a minha vida. As mi­nhas primeiras recordações estão marcadas pelos mais ternos sor­risos e carícias!…» (Ms A 4 v): eis o retrato mais vivo dos Veneráveis Servos de Deus Luís Martin e Zélia Guérin, traçado pela mais ilustre das suas filhas. Santa Teresa de Menino Jesus da Santa Face, nas primeiras páginas da História de uma Alma, descreve a ternura e a alegria da sua vida familiar. Teresa, a mais jovem Doutora da Igreja, percebeu a sua família como a terra dum jardim, «uma terra santa» na qual cresceu com as suas irmãs, sob o cajado hábil e perito dos seus incomparáveis pais.

 «O bom Deus – escreve ela ao abade Bellière alguns meses antes da sua morte – deu-me um pai e uma mãe mais dignos do Céu do que da terra». Esta profunda convicção das filhas Martin da santidade dos seus pais era partilhada pelos membros da sua família como também pelas pessoas simples que falavam deles como dum casal santo. Catorze anos depois da morte de Zélia, numa carta de 1891 (mil oitocentos e noventa e um), a tia Celina Guérin escrevia a Teresa, já no Carmelo:

 «Que fiz para que Deus me rodeasse de corações tão amorosos! Não fiz senão corresponder ao último olhar duma mãe que amava muito, muito.  Julguei compreender este olhar que nada me poderá fazer esquecer. Ficou gravado no meu coração. Desde aquele dia, procurei substituir aquela que Deus vos tinha arrebatado, mas infelizmente, ninguém substitui uma Mãe!…

Ah! é que os teus Pais, minha pequena Teresa, são daqueles a quem podemos chamar santos e merecem ter filhos santos».

 A própria Leónia, que criou tanta dificuldade aos seus pais, repetia às suas Irmãs da Visitação de Caen:

 «A nobreza obriga; pertenço a uma família de santos; devo estar à altura».

 Os Martin não são santos por terem dado ao mundo uma santa, mas por terem aspirado à santidade como casal. Estavam animados por um desejo recíproco, existia nos dois a vontade de procurar, no estado de vida que tinham abraçado, a vontade de Deus e a obediência ao seu mandamento: «Sede santos porque Eu sou santo». Luís e Zélia Guérin foram o húmus, a terra fecunda, onde Teresa nasceu e viveu durante quinze anos, antes de se tornar «a maior santa dos tempos modernos» (Pio X).

 O seu segredo: uma vida ordinária «extraordinária»

 Luís e Zélia são um exemplo luminoso de vida conjugal vivida na fidelidade, no acolhimento da vida e na educação dos filhos. Um casamento cristão vivido na confiança absoluta em Deus e que pode ser proposto às famílias de hoje. A sua vida matrimonial foi exemplar, cheia das virtudes cristãs e de sabedoria humana. Exemplar não significa que devemos decalcar, fotocopiar a sua vida reproduzindo todos as suas acções e gestos, mas que devemos utilizar como eles os meios sobrenaturais que a Igreja oferece a cada cristão para realizar a sua vocação à santidade. A Providência quis que a sua Beatificação fosse anunciada no contexto das celebrações dos cento e cinquenta anos (150º) do seu casamento, a treze (13) de Julho de mil oitocentos e cinquenta e oito (1858).

 Porquê depois de tanto tempo? Uma tal família não está longe da nossa época? Em que são actuais os pais Martin? Podem ajudar as nossas famílias a enfrentar os desafios de hoje?

 Estou certo de que se vai abrir um grande debate à volta deste casal e quando da sua próxima Beatificação. Conferências, debates, mesas redondas procurarão determinar a actualidade da sua experiência com a nossa história tão complexa. Uma coisa deve entretanto ficar clara: a Igreja não canonizou uma época, mas examinou a santidade. Com os Martin, a Igreja propõe aos fiéis a santidade e a perfeição da vida cristã, que este casal de esposos alcançou de modo exemplar e, para utilizar a linguagem dos Processos, até um grau heróico. A Igreja não se interessa pelo excepcional, mas sublinhou como, no quotidiano das suas vidas, eles foram o sal da terra e a luz do mundo (Mateus 5, 13-14). O Servo de Deus João Paulo II afirmava: É necessário que o heróico se torne quotidiano e que o quotidiano se torne heróico. A Igreja estabeleceu que Luís e Zélia fizeram da sua vida quotidiana algo de heróico e do heroísmo algo de quotidiano. Isto é possível para cada cristão seja qual for o seu estado de vida. Apraz-me citar aqui uma passagem da célebre Carta a Diogneto sobre o casamento cristão e que os esposos Martin souberam encarnar perfeitamente:

 Os cristãos não se distinguem dos outros homens nem pela pátria, nem pela língua, nem pelo vestido. () Casam-se como os outros e têm filhos, mas não se desfazem dos recém-nascidos. São de carne, mas não vivem segundo a carne. Habitam na terra, mas são cidadãos do céu. Obedecem às leis estabelecidas, mas, pela sua maneira de viver, superam as leis.

 Esta carta traça um modelo concreto de vida possível, um caminho que todo o discípulo de Jesus é chamado a percorrer, mesmo hoje: anunciar a beleza do matrimónio cristão com as suas experiências autênticas, credíveis, atraentes. Para realizar isto são precisos esposos e pais maduros no amor. Luís e Zélia abraçaram a  forma de vida conjugal para seguir a Cristo. Esposos, cônjuges e pais em Cristo onde o matrimónio é acolhido como uma vocação e uma missão dadas por Deus. Com as suas vidas, anunciaram a todos a boa nova do amor «em Cristo»: o amor humilde, o amor que não poupa nada para recomeçar cada manhã, o amor capaz de confiança, de sacrifício. Esta comunhão emerge claramente nas cartas trocadas entre os dois esposos.

 Numa destas breves cartas, que é quase uma síntese do amor matrimonial, Luís assina assim: «Teu marido e verdadeiro amigo, que te ama por toda a vida». A estas palavras servem-lhe de eco as de Zélia: «Sigo-te em espírito todo o dia; digo para mim: “Ele faz tal coisa neste momento”. Estou ansiosa por estar junto de ti, meu querido Luís; amo-te de todo o meu coração, e sinto ainda redobrar o meu afecto pela privação que provo da tua presença; ser-me-ia impossível viver afastada de ti».

 Qual é o segredo desta comunhão? Talvez, o facto de que, antes de se olharem reciprocamente nos olhos, tinham o seu olhar fixo no de Jesus. Viviam sacramentalmente a comunhão recíproca, através da Comunhão que os dois cultivavam com Deus.

 Eis o novo «Cântico dos Cânticos», próprio para os cônjuges cristãos: não só o devem cantar, mas só eles o podem cantar. O amor cristão é um «Cântico dos Cânticos» que o casal canta com Deus.

 A vocação em família

 A vocação é, antes de tudo, uma iniciativa divina. Mas uma educação cristã favorece a resposta generosa ao chamamento de Deus: É no seio da família que os pais devem ser para os seus filhos, pelas suas palavras e pelo seu exemplo, os primeiros anunciadores da fé, e devem favorecer a vocação de cada um, e de modo especial, a vocação consagrada (CCC, 1656). Assim, se os pais não viverem os valores evangélicos, os jovens e as jovens dificilmente poderão ouvir o chamamento, compreender a necessidade dos sacrifícios a fazer ou apreciar a beleza do fim a atingir. Efectivamente, é na família que os jovens fazem a sua primeira experiência dos valores evangélicos, do amor que se dá a Deus e aos outros. É preciso mesmo que sejam formados para se tornarem responsáveis da sua liberdade, a fim de estarem preparados para viver, segundo a sua vocação, as realidades espirituais mais elevadas (João Paulo II: Vida consagrada).

 Todos os filhos dos Martin foram acolhidos como um grande dom de Deus para serem, a seguir, dados a Deus. A mamã, com o coração ferido de dor, ofereceu os seus quatro filhos mortos em tenra idade. O papá ofereceu as suas cinco filhas, à sua entrada no mosteiro. Pelos seus filhos, não sofreram apenas as dores do parto físico, mas também as dores de gerar neles a fé até Cristo ser formado neles (Gl 4, 19).

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Novos Santos do Carmelo (IV)

Conferência do Cardeal José Saraiva Martins, Alençon e Lisieux, 12-13 de Julho de 2008, 150 aniversário de casamento dos veneráveis esposos, Luís e Zélia Martin

 OS PAIS MARTIN

 Um percurso de santidade que transmite a fé

 «Bodas de granito»

 É para mim uma grande emoção e uma graça de Deus estar hoje convosco neste lugar. A igreja de Nossa Senhora de Alençon, com o seu pórtico gótico flamejante, é uma verdadeira jóia, como vós próprios dizeis, uma verdadeira renda, o ponto de Alençon em pedra; disseram-me que «se quisermos colocar a Deus no mais belo lugar da igreja, é preciso pô-lo à porta!».

 Agradeço a delicada atenção com que fui convidado neste dia 12 de Julho a fazer memória, com todos vós, do 150º aniversário do casamento dos Veneráveis Servos de Deus, Zélia Guérin e Luís Martin. Casamento e vida, direi, realizados com uma rara mestria, pelo verdadeiro Arquitecto desta magnífica obra-prima: os esposos Luís e Zélia Martin são pedras escolhidas, «pedras preciosas e vivas, esculpidas pelo Espírito Santo», tal como uma finíssima renda de ponto de Alençon para a Igreja de Deus que são as dioceses de Sées e de Bayeux e Lisieux onde eles viveram e morreram.

 Bodas de ouro em Cristo, mesmo, três vezes de ouro, se podemos dizer, pois duram desde há 150 anos. Penso que é preciso justificar o termo: «bodas de granito» como o vosso bispo Mons. Jean-Claude Boulanger as caracterizou no web site da diocese. Quando vemos as casas de centro histórico da vossa bela e célebre cidade – que posso admirar –, encontro de facto adequada a imagem do granito para caracterizar a solidez e a simplicidade do amor e da fé dos esposos Martin.

 Permiti que vos lembre as palavras dum contemporâneo da sua filha Teresa, Paul Claudel (1868-1955) que, no Prólogo do Anunciação feita a Maria, escreve:

 «Não compete à pedra escolher o seu lugar, mas ao Mestre da Obra que a escolheu… A Santidade não consiste em fazer-se lapidar junto dos Turcos ou beijar um leproso na boca, mas principalmente em cumprir o mandamento de Deus, quer se trate de permanecer no nosso lugar, quer de subir mais alto».

 Os Martin são santos escolhidos por Deus para serem daqueles santos comprometidos na construção da Sua Igreja. É nisto, precisamente, que reside a santidade: apressar-se a fazer a vontade de Deus ali onde Ele nos colocou, trata-se de «permanecer no nosso lugar, ou de subir mais alto».

 Deus é o «Três vezes santo», Deus é este «Pai verdadeiramente santo, fonte de toda a santidade», que «santifica os dons e os fiéis «pela efusão do seu Espírito»[1]. A santidade, toda a santidade, não é senão o reflexo da sua glória. A Igreja, ao elevar alguém às honras dos altares, quer antes de tudo contar e proclamar a glória e a misericórdia de Deus. Ao mesmo tempo, pelo testemunho deles, oferece aos crentes um exemplo a imitar e, pela intercessão deles, um auxílio ao qual recorrer.

 Precisamente no dia 12 de Julho, em 1858 às 22 horas, os veneráveis servos de Deus, Zélia Guérin e Luís Martin contraíram um casamento civil. Duas horas mais tarde, à meia-noite, acolhidos pelo abade Hurel, um sacerdote amigo, franquearam o átrio desta igreja paroquial para celebrar as suas bodas em Cristo; isto na mais estrita intimidade, rodeados por alguns familiares e amigos próximos. A noite das suas bodas lembra a noite de Natal e a da Páscoa, a noite «única entre todas» que mereceu conhecer o momento e a hora do acontecimento que mudou a história da humanidade. Assim começou o seu «Cântico dos Cânticos».

 Um casal apostólico

 Teresa, tornada carmelita, convidava a sua irmã Celina a exprimir num cântico de acção de graças a Jesus por ocasião da sua tomada de hábito:

 «Ergue os olhos para a Pátria Santa

E verás em tronos de honra

Um Pai amado… Uma Mãe querida…

Aos quais deves a tua imensa ventura!…» (P 16, 5)

 Os veneráveis Servos de Deus Zélia e Luís, que o Papa terá a alegria de elevar às honras dos altares, foram antes de tudo um casal unido em Cristo, que viveu a sua missão na transmissão da fé com paixão e com um raro sentido do dever. Viveram num momento particular da história, esse século XIX muito diferente do nosso, e entretanto, testemunharam e comprometeram-se de modo muito natural, direi mesmo de maneira psicológica, no que nós hoje chamamos a evangelização.

 Podemos, com justa razão, defini-los como um «casal apostólico» tal como Priscila e Áquila: os esposos Luís e Zélia comprometeram-se como casal cristão leigo no apostolado da evangelização, e fizeram-no, de modo sério e convencido durante toda a sua existência, no seio da sua família como no exterior.

 O «dom de si» é realmente admirável na vida destes «incomparáveis pais»[2], segundo a própria expressão de santa Teresa do Menino Jesus da Santa Face. Mas a santidade das suas vidas, como a sua fama de santidade, não se limita ao período conjugal. Já está presente antes. A vida dos dois desenvolveu-se na busca de Deus, na oração, animada pelo profundo desejo de realizar sobretudo a Sua vontade. Tinham-se orientado, à partida, para uma vida religiosa consagrada. Pediram ajuda no seu discernimento.

 Não acabaríamos de ser edificados pelos relatos de numerosos actos de caridade manifestados nas vossas ruas pelos esposos Martin. Vários alençonenses, membros da família Martin como os seus amigos foram testemunhas directas do seu «dom de si». Depuseram nos diferentes Processos informativos, em primeiro lugar para a causa de Teresa, e, mais tarde, para a dos seus pais, processo que tem por finalidade verificar os critérios de santidade na Igreja. Nos testemunhos recolhidos para a causa de Teresa, numerosas pessoas falaram dos pais dela e das suas qualidades eminentemente cristãs.

 Basta ler a História de uma Alma e passear nas ruas da vossa cidade para descobrir os lugares onde Luís e Zélia cresceram, receberam a sua formação humana e cristã e trabalharam: rua de São Brás para Zélia, como bordadeira (e que bordadeira!); rua da Ponte Nova para Luís, como relojoeiro-joalheiro. Foi aí que eles aprofundaram a sua fé e pensaram dar-se ao Senhor. Deus, porém, tinha outros projectos para eles e, um dia, cruzaram-se, na ponte de São Leonardo, conheceram-se e amaram-se. Depois casaram e tornaram-se pais. Foi precisamente aqui, nesta igreja, que Teresa, a última filha, nasceu para Cristo. As fontes baptismais são ainda as mesmas; representam o seio da Igreja, Mãe e educadora de santos, único seio que nos faz a todos filhos do Único Pai, única matriz da santidade.

 São proverbiais, a abertura e a capacidade de acolhimento da família Martin: não só a casa está aberta e acolhe quem bate à porta, mas o coração deste esposos é caloroso,  magnânimo e pronto para o «dom de si». Contrariamente ao espírito burguês do seu tempo e do seu meio, que esconde por detrás dum certo decorum a religião do dinheiro e o desprezo dos pobres, Luís e Zélia, com as suas cinco filhas, gastavam uma boa parte do seu tempo e do seu dinheiro para ajudar aquele que se encontrava em necessidade.

 No processo dos seus pais, Celina Martin, no Carmelo Irmã Genoveva, testemunhou o amor do seu pai e da sua mãe aos pobres:

 «Se em casa reinava a economia, havia prodigalidade quando se tratava de socorrer os pobres. Íamos junto deles, procurávamo-los, obrigávamo-los a entrar em nossa casa, onde eram saciados, abastecidos, vestidos, exortados a fazer o bem. Vejo ainda a minha mãe apressada junto dum idoso pobre. Tinha então sete anos. Mas lembro-me como se fosse ontem. Andávamos de passeio pelo campo quando, no caminho, encontramos um idoso pobre que parecia infeliz. A minha mãe enviou a Teresa a dar-lhe uma esmola. Ele ficou tão agradecido que ela entrou em conversa com ele. Então a minha mãe disse-lhe para nos seguir e reentramos em casa. Preparou-lhe um bom jantar, ele morria de fome, e deu-lhes roupas e um par de sapatos… E convidou-o a voltar a nossa casa quanto tivesse necessidade dalguma coisa»[3].

 E, a propósito do seu pai, ela acrescenta:

 «O meu pai ocupava-se a encontrar-lhes um emprego conforme a sua condição, levava-os ao hospital quando era preciso, ou procurava-lhes uma situação honrosa. Foi assim que ajudou uma família da nobreza em aflição […] Em Lisieux, nos Buissonnets, todas as segundas-feiras, pela manhã, os pobres vinha pedir esmola. Dava-lhes sempre víveres ou dinheiro; e, muitas vezes, era a Teresinha que levava as esmolas. Num outro dia, o meu pai tinha encontrado na igreja um idoso que tinha ar de muito pobre. Levou-o para casa. Deu-lhe de comer e tudo aquilo de que ele tinha necessidade. No momento em que ele partia, o meu pai pediu-lhe para nos abençoar, a Teresa e a mim. Nós éramos já crescidas e ajoelhámo-nos diante dele, e ele abençoou-nos»[4].

 São coisas extraordinárias que se passaram mesmo aqui! Não estamos diante duma simples bondade, mas diante do amor ao pobre vivido de maneira heróica, segundo o espírito do evangelho de Mateus[5]. Neste casal luminoso resplandece qualquer coisa da santidade de sempre que encontramos ao longo da história da Igreja.

 A fama de santidade

 Todos os Papas, que se ocuparam de pequena Teresa (São Pio X, Bento XV, Pio XI, Pio XII, o bem-aventurado João XXIII, o Servo de Deus Paulo VI – do papa João Paulo I falarei a seguir – e até ao grande Papa João Paulo II), todos puseram em evidência a exemplaridade da santidade dos pais Martin, sublinhando a ligação da sua santidade com a da sua filha.

 A santidade destes esposos não se deve à santidade da sua filha; é uma verdadeira santidade pessoal querida, perseguida por meio dum caminho de obediência à vontade de deus que quer todos os seus filhos santos como Ele mesmo é Santo. Então, podemos dizer que Teresa é a primeira «postuladora» da santidade dos seus pais; santidade no sentido mais verdadeiro da palavra, não é uma simples maneira de falar. Teresa fala do seu pai usando várias vezes palavras como «santo», «servo de Deus», «justo». Admirava nos seus pais são só as suas capacidades e a sua delicadeza humana ou a sua coragem e o seu trabalho, realça também a sua fé, a sua esperança e a sua caridade, o exercício heróico destas virtudes teologais. Sublinha todos os elementos que são objecto dum exame nos processos canónicos. Se pudesse, recomendá-la-ia como postuladora.

 A Igreja sente-se devedora para com Luís e Zélia, que foram verdadeiros mestres e modelos de santidade para a sua filha Teresa, como precisamente afirmou Balthasar na sua obra Irmãs no Espírito[6] quando escreve:

 «No sobrenatural, Teresa não realiza senão o que ela, de qualquer maneira, viveu no natural. Talvez não tem nada de mais íntimo e de mais irresistível que o amor do seu pai e da sua mãe. É por isso que a sua imagem de Deus está determinada pelo amor da filha aos pais. Ao Luís e à Zélia Martin devemos, por fim, a doutrina do “pequeno caminho”, a doutrina da “infância”, porque tornaram vivo em Teresa do Menino Jesus o Deus que é mais do que pai e mãe»[7].

 Esta observação de Balthasar é duma importância capital. Afirma muito claramente que a doutrina do “pequeno caminho” que fez de Teresa uma Doutora da Igreja na Ciência do amor de Deus, devemo-la à santidade e à exemplaridade da vida de Luís e de Zélia; a Igreja ao preparar-se hoje para beatificar este casal, ensina que a santidade é possível, que está ao alcance de todos, seja qual for a escolha e o estado de vida que tenhamos abraçado. E se possível uma grande santidade.

 Não deveria ser isto uma realidade para todo o lar? A família não está chamada a transmitir aos seus filhos o mistério de «Deus que é mais do que pai e mãe»? A família não é uma escola de humanidade verdadeira e um  lugar de exercícios para a santidade? é o lugar privilegiado para forjar o carácter e a consciência. Eis a missão, o dever de sempre dos casais, da família cristã.

 Bem vistas as coisas, a fama de santidade destes esposos ultrapassa já os limites das vossas dioceses; ela está presente hoje, poderíamos dizer, em toda a Ecúmena católica como sobressai da abundante e pormenorizada documentação que não cessa de aumentar desde há mais de 80 anos.

 Este prodígio, devemo-lo certamente a Teresa. Se é verdade que a História de uma Alma, cuja primeira edição data de 1898, é, depois da Bíblia, o livro mais traduzido em numerosas línguas, compreendemos muito bem a imensa ressonância que daí resulta para os pais Martin no mundo. Não é sem dúvida exagerado dizer que, no que diz respeito à fama, depois da Sagrada Família de Nazaré, a «santa família Martin» vem em segundo lugar.

 O servo de Deus, João Paulo I, quando era Patriarca de Veneza (1969-1978), escreveu, num livro muito conhecido, Illustrissimi[8]:

 «Quando vi que tinha sido introduzida a causa de beatificação dos pais de santa Teresa do Menino Jesus, disse para comigo: “enfim uma causa a dois! São Luís é santo sem a sua esposa Margarida, Mónica sem o seu marido Patrício; Zélia Guérin, pelo contrário, será santa com Luís Martin seu esposo e com Teresa sua filha!»

 Já em 1925, o Cardal Antonio Vico, enviado por Pio XI a Lisieux como delegado para presidir às solenes festas em honra de Santa Teresa do Menino Jesus, canonizada pouco depois, dirigiu-se à Madre Inês de Jesus (Paulina, a segunda filha dos Martin): «Agora é preciso ocupar-se do papá… É de Roma que me encarregam de vo-lo dizer»[9]. Se a tarefa não teve seguimento imediato, devemo-lo à perplexidade evidente da Madre Inês de Jesus.

 «Incomparáveis pais»

 Todos aqueles que abordaram, mesmo rapidamente, a História de uma Alma,  não podem senão admirar a personalidade humana e espiritual destes pais que construíram, com sabedoria, a atmosfera espiritual na qual cresceu Teresa. Não podem senão amar os seus «incomparáveis pais».

 A rica correspondência de Zelia é um testemunho da maneira como a Senhora Martin seguiu a formação humana, cristã e espiritual de todos os membros da sua família, principalmente a do seu irmão Isidoro, antes e depois do seu casamento, a da sua cunhada Celina Fournet e a das suas próprias filhas. Não há nenhuma das suas cartas que não manifeste a presença de Deus, uma presença não formal ou de conveniência, de circunstância, mas uma referência constante em todos os aspectos da vida. Uma correspondência que testemunha uma delicada atenção ao bem de toda a pessoa e ao seu crescimento global. Crescimento que é pleno e válido na medida em que não exclui Deus do seu horizonte.

 Luís, seu marido, é menos loquaz e não gosta de escrever. Não recusa testemunhar abertamente a sua fé e não teme as troças a seu respeito; nas relações com a sua mulher, em casa com as suas cinco filhas, na gestão da sua relojoaria-joalharia, ou ainda com os seus amigos, na tua ou em viagem, em todas as circunstâncias, para ele «o Senhor Deus, o primeiro a ser servido».

 Uma família missionária de primeira hora quando, em França, desde há pouco, surge a obra da Propagação da fé de Pauline Jaricot (1799-1862) e que começam os movimentos missionários do século XIX. Sabeis que os Pais Martin inscreveram todas as suas filhas na Obra da Santa Infância (conserva-se ainda a imagem-recordatório da inscrição de Teresa, a 12 de Janeiro de 1882) e que enviaram ofertas generosas para a construção de novas igrejas em terra de missão. Para Teresa, o facto de participar muito jovem nas actividades da Obra da Santa Infância, fez despertar e crescer nela o seu zelo missionário. Luís e Zélia foram santos que geraram uma santa, foram esposos missionários que, não só, participaram no impulso missionário do seu tempo, mas educaram para a Igreja a Padroeira das Missões Universais (1927).

 Luís e Zélia são santos, não tanto pelo método ou pelos meios escolhidos para participar na evangelização, (que são evidentemente os da Igreja e da sociedade do seu tempo), mas são santos pelo testemunho da seriedade da sua fé vivida na sua família. Evangelizaram os seus filhos pelo exemplo da sua vida de casal, depois pela palavra e pelo ensino no seio da família.

 A este respeito, basta lembrar o que a própria Teresa escreve na História de uma Alma a propósito do fascínio que o seu pai e a sua mãe exerciam sobre ela:

 «Todos os pormenores da doença da nossa querida mãe estão ainda presentes no meu coração; lembro-me, sobretudo, das últimas semanas que passou na terra; a Celina e eu éramos como pobres pequenas exiladas; todas as manhãs, a Sr.ª Leriche vinha buscar-nos, e nós passávamos o dia em casa dela. Um dia não tivemos tempo de fazer a nossa oração antes de sair e, pelo caminho, a Celina disse-me baixinho: «Temos de dizer que não fizemos a nossa oração?…» – «Ah, sim!», respondi. Então, muito timidamente, ela disse-o à Sr.ª Leriche, e esta respondeu-nos: – «Então, minhas meninas, ides fazê-la»; e, depois de nos meter as duas num grande quarto, foi-se embora… Então, a Celina olhou para mim e dissemos: «Ah! não é como a Mamã… ela sempre nos ajudava a fazer as nossas orações!…»[10].

 O seu pai, «o Rei de França e de Navarra»[11], como gostava de lhe chamar, exercício um belo fascínio espiritual sobre ela. A sua figura inspirava veneração e respeito:

 «Que poderei dizer dos serões de Inverno, sobretudo dos de domingo? Ah! como era agradável, depois da partida de damas, ir sentar-me com a Celina nos joelhos do Papá!… Com a sua bela voz cantava melodias que enchiam a alma de pensamentos profundos… Ou então, embalando-nos suavemente, recitava poesias impregnadas das verdades eternas… Em seguida subíamos para fazer a oração em comum, e a rainhazinha ficava sozinha ao pé do seu Rei, não tendo senão que olhar para ele para saber como rezam os santos… »[12].

 Uma iniciação cristã em família

 Podemos definir o manuscrito A como «o manuscrito da iniciação cristã familiar de Teresa». Um iniciação conduzida com a mesma seriedade que a aprendizagem escolar. A fé, em casa dos Martin, é uma fé vivida e não uma série de normas a respeitar. Teresa, sempre no manuscrito A (1895), agradece não só aos seus pais já falecidos (a mamã em 1877 e o papá em 1894) mas também as suas irmãs mais velhas pela sua preparação para os sacramentos da iniciação cristã.

 Quero sublinhar aqui o valor particular, não só dos pais, mas também o das irmãs mais velhas, portanto de toda a família. Os pais educados eles mesmos pelo ensino da Igreja, transmitiram, por sua vez, este ensino recebido a todos os seus filhos. E fizeram-no tão bem, que mereceram que a mais ilustre das suas filhas, depois dela própria ter sido ensinada e formada por este «incomparáveis pais», se tornasse Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, que hoje ensina a toda a Igreja e a toda a humanidade como doutora (1997). Ab ipsis docta docet: Ensinada, ensina agora.

 É este o desafio que a Igreja lança hoje a todas as famílias cristãs, com a beatificação desta família.

 Eles não foram meros instrumentos de transmissão da fé, como um aqueduto transporta a água, mas o depositum fidei, o depósito da fé, transmitiram-no e enriqueceram-no com a sua própria experiência pessoal de fé, de esperança e de caridade. Não transmitiram a fé como qualquer coisa de tradicional, de fragmentário e de nocional, mas como qualquer coisa viva. Não uma fé que seria uma herança como aquela que deixam os mortos; porque a herança vem depois da morte; não, pelo baptismo, introduziram os seus filhos na corrente viva e vital da Igreja, não se substituindo à Igreja, mas com a Igreja e na Igreja. Colaboraram com a Igreja em perfeita harmonia.

 É preciso observar ainda que a santidade deste casal está de acordo com o concílio Vaticano II e outros Documentos da Igreja. Penso sobretudo na constituição pastoral Gaudium et Spes no seu capítulo sobre a santidade do matrimónio e da família[13]:

 «Precedidos pelo exemplo e pela oração comum dos seus pais, as filhas, e mesmo todos os que vivem no círculo familiar, abriram-se assim mais facilmente aos sentimentos da humanidade e encontraram mais livremente o caminho da salvação e da santidade».

 Como não ver a proximidade da família Martin com este texto? Tudo isto pode surpreender-nos quando pensamos quanto o seu tempo é distante do nosso. Há 150 anos, a 12 de Julho de 1858 se situava na França do Segundo Império. Nós, homens e mulheres do Terceiro Milénio, podemos provar uma dificuldade em imaginar o seu género de vida quotidiana, sem electricidade, sem aquecimento, nem rádio nem televisão, nada de todos estes meios modernos de comunicação que caracterizam a nossa vida moderna. Mas nós, hoje, aqui, julgamos a santidade, não pela distância que nos separa do testemunho deles; julgamos a santidade, não a forma na qual ela nos chega. A santidade deles dista de nós na forma mas não na substância, no conteúdo e na doutrina. Os Martin souberam guardar o bom vinho até ao fim (Jo 2, 10).

 Mesmo à luz dos documentos da Igreja, este casal pode ser proposto como uma família comprometida na evangelização dos seus filhos. Na sua época, tratava-se duma evangelização mais apoiada, talvez, no catecismo e nos preceitos, a doutrina da Igreja era ensinada não apenas na paróquia mas também na família, aprendiam-se de cor as verdades da fé. Em tudo isto a Igreja seguia o método de ensino corrente nesta época em que a memória jogava uma papel importante.

 A família Martin é testemunha em sua casa – com os seus filhos e com aqueles que os rodeiam, os seus pais e os seus criados – do papel da evangelização, não só enquanto casal: toda a família tem uma missão e uma tarefa a desenvolver.

 Paulo VI escrevia na sua encíclica Evangelii nuntiandi (71) alguma coisa que vemos vivida na família Martin.

 «No conjunto daquilo que é o apostolado evangelizador dos leigos, não se pode deixar de pôr em realce a acção evangelizadora da família. Nos diversos momentos da história da Igreja, ela mereceu bem a bela designação sancionada pelo II Concílio do Vaticano: “Igreja doméstica”.

Isso quer dizer que, em cada família cristã, deveriam encontrar-se os diversos aspectos da Igreja inteira. Por outras palavras, a família, como a Igreja, tem por dever ser uma espaço onde o Evangelho é transmitido e onde o Evangelho irradia.

No seio de uma família que tem consciência desta missão, todos os membros da mesma família evangelizam e são evangelizados. Os pais, não só comunicam aos filhos o Evangelho, mas podem receber deles o mesmo Evangelho profundamente vivido. E uma família assim torna-se evangelizadora de muitas outras famílias e do meio ambiente em que ela se insere».

 A casa da rua da Ponte Nova, a da rua de São Brás e a dos Buissonnets foram sempre, apesar das diferentes mudanças, uma «pequena Igreja doméstica» na qual mais uma vez os Martin estão bem em harmonia com o nosso tempo.

 A família de Luís e de Zélia foi, para os seus cinco filhos – outros quatro morreram em tenra idade – o lugar privilegiado da experiência do amor e da transmissão da fé. Em casa, na intimidade do calor familiar e da vida doméstica, cada um recebeu e deu. No meio dos múltiplos afazeres profissionais, os pais souberam um e outro comunicar os primeiros ensinamentos da fé aos seus próprios filhos, desde a mais tenra infância. Foram os primeiros mestres da iniciação dos seus filhos na oração, no amor e no conhecimento de Deus, mostrando que rezavam em particular e em conjunto, acompanhando-os à missa e nas visitas ao Santíssimo Sacramento; ensinaram-lhes a oração, não simplesmente dizendo-lhes que era preciso rezar, mas transformando as suas casas num «escola de oração». Ensinaram-lhe como era importante permanecer com Jesus, escutando os Evangelhos que nos falam d’Ele. Mais ainda, a vida espiritual, cultivada desde a juventude, como foi o caso de Luís e de Zélia, alimentava-se na fonte da vida paroquial. Eram fiéis leitores da Ano litúrgico de Dom Guéranger, livro muito apreciado pela própria Teresa, que tomou conhecimento dele precisamente em casa.

 Caros irmãos e irmãs, Luís e Zélia revelam-nos uma verdade simples, mesmo muito simples: a santidade cristã não é um ofício para um pequeno número. É, em verdade, a vocação normal de todos, de cada baptizado. Luís e Zélia disseram-nos simplesmente que a santidade diz respeito à mulher, ao marido, aos filhos, às preocupações do trabalho, e mesmo à sexualidade. O santo não é um super-homem, o santo é um homem verdadeiro.

 A 4 de Abril de 1957, Celina – no Carmelo Irmã Genoveva da Santa Face –, depondo no processo sobre a heroicidade do seu pai, fala da

 «beleza duma vida conjugal vivida inteiramente e unicamente para Deus, sem nenhum egoísmo nem inclinação sobre si. Se o servo de Deus desejava muitos filhos, era para os dar a Deus sem reserva. E tudo isto na simplicidade duma existência normal, de trabalho, semeada de provações, acolhidas com abandono e confiança na Divina Providência».

 Termino retomando as mesmas palavras que concluíram a declaração sobre as virtudes de Luís e de Zélia a 13 de Outubro de 1987:

 «Temos diante de nós um casal, e uma família, que viveram e agiram plenamente de acordo com o Evangelhos, unicamente preocupados  em viver a cada instante do dia o plano preparado por Deus para eles. Interrogando e ouvindo a Sua voz, não fizeram senão aperfeiçoar-se. Luís e Zélia Martin não são protagonistas de gestos    ou duma densidade apostólica particular, mas viveram a vida quotidiana de toda a família, iluminados sempre pelo divino e o sobrenatural. É este o aspecto central, de importância eclesial, oferecido à imitação das famílias de hoje. Pondo a família Martin diante de nós, poderemos receber alimento, força, orientação, para evitar o laicismo e a secularização moderna, e assim triunfar de muitas misérias, e ver o dom do amor conjugal e, com ele, o dom da paternidade e da maternidade à luz dum incomensurável Dom de Deus»[14].

 [1] Oração eucarística II.

[2] «A incomparável mãe» (Manuscrito A, 4 v) e «o incomparável pai» (Ct 91).

[3] Positio I, p. 420 § 603.

[4] Positio I, § 56, p. 41 Idem?

[5] Mateus 25, 31-46, particularmente o versículo 40: «a Mim mesmo o fizestes».

[6] Irmãs no Espírito, Teresa de Lisieux e Isabel da Trindade.

[7] In Summarium Documentorum, XXVIII, Roma, 1987, p. 1042.

[8] Illustrissimi é uma obra publicada em Janeiro de 1976, traduzida em francês com o título Humblement vôtre (nouvelle Cité, Paris 1978). Trata-se duma recolha de “cartas abertas” escritas por Mons. Albino LUCIANI, Patriarca de Veneza, dois anos e meio antes de ser eleito papa com o nome de João Paulo I. Dirige-se a personagens históricas ou da mitologia, as escritores, a pessoas da literatura italiana ou estrangeira, ou ainda aos Santos da Igreja.

[9] Cf. Summarium Documentorum, op. cit., p. 1138.

[10] Manuscrito A, 12 r.

[11] Cf. Manuscrito A, 19 v.

[12] Manuscrito A, 18 r.

[13] GS 48, 2ª parte, cap. 1, nn. 48 § 3.

[14] Processo, vol. II, summarium, pág. 22, ad. 6.

Novos Santos do Carmelo (III)

BEM-AVENTURADOS LUÍS E ZÉLIA MARTIN

 (texto de Mons. Pedro Pican, bispo de Bayeux e Lisieux)

 Há 150 anos, Luís e Zélia Martin, pais de Teresinha, uniam-se em matrimónio em Alençon e decidiram realizar o seu próprio projecto de vida constituindo uma grande família.

 Para viverem o seu amor, tiveram que renunciar às suas anteriores aspirações de vocação à vida religiosa. Integraram na sua vida de casal, como muitos contemporâneos seus, a participação intensa, activa, regular e ardente na vida da Igreja. Alimentaram-se dos Sacramentos, participaram na vida da paróquia e dedicaram um tempo cada dia à oração partilhada, ao recolhimento, à meditação e ao ritmo respeitoso e discreto da vida pessoal de cada um. Nunca deixaram de receber o sacramento da Reconciliação conforme era recomendado pela Igreja e de viver a graça recebida. Unidos na confiança de viver o caminho ordinário da santificação como casal, deram vida a nove filhos trabalhando cada um na sua profissão.

 As provações familiares marcaram a sua vida e purificaram a sua fé, confirmando a sua confiança no Senhor. Levaram uma vida de trabalho intenso e provado. Enfrentaram a doença e a morte de quatro dos seus queridos filhos, falecidos com muito poucos anos.  Só sobreviveram cinco filhas das quais Teresa, a mais nova, ser a amais conhecida pelo seu cumprimento da doutrina do Evangelho na sua vida e pela sua irradiação missionária.

 Cinco anos depois do seu casamento, em 1850, Luís e Zélia criam a sua própria empresa de ponto de Alençon. Luís trabalhou com a sua esposa. Fez o possível por levar aos bordados as novas correntes, os novos modelos. Os resultados foram extraordinários. Havia que encontrar novos mercados. Por isso viajou frequentemente de Alençon as Paris para buscar novos clientes, conservar os existentes e assegurar o bom desenvolvimento da produção de Zélia e das suas empregadas. Durante este período trespassou a sua relojoaria ao seu sobrinho Adolfo Leriche. Luís e Zélia deixaram a casa da rua Ponte Nova de Alençon e instalaram as suas actividades na rua de São Brás.

Zélia assumiu, com uma coragem extraordinária a sua responsabilidade materna, o seu compromisso profissional e o seu doloroso combate contra o cancro que a levaria à morte a 28 de Agosto de 1877. Tinha 46 anos e deixava o seu marido – cuja fragilidade conhecia – e as suas cinco filhas. Quatro escolheram o mesmo Carmelo de Lisieux. Leónia o mosteiro da Visitação de Caen.

 A beatificação dos pais descobrirá a vida deste casal tão atenta a inscrever a sua resposta quotidiana no compromisso com os seus filhos e no crescimento espiritual de cada um deles. Passarão por momentos muito dolorosos na sua vida, mas a sua fé, cheia de paz, humilde, ardente e enraizada na Igreja, permitir-lhes-á aceitá-los em paz.

 Cheia de imenso amor filial, Teresinha não vacila em escrever ao abade Bellière dois meses antes da sua morte: «Deus deu-me um pai e uma mãe mais dignos do céu do que da terra. Pediram ao Senhor que lhes desse muitos filhos e que os tomasse para si. O seu desejo foi ouvido: quatro anjinhos voaram para o céu e as cinco filhas que fiaram na arena tomaram Jesus por Esposo».

 Estamos em boa companhia.

 

Novos Santos do Carmelo (II)

OS ESPOSOS MARTIN: UMA AURÉOLA PARA DOIS

 (Texto de Mons. Guy Gaucher, bispo auxiliar emérito de Bayeux e Lisieux)

 Os trabalhos concernentes a uma possível beatificação de Luís e Zélia Martin datam de 1958. Mas há muito tempo que casais e famílias os invocavam e recebiam graças pela sua intercessão. É evidente que não serão beatificados porque terem gerado «a maior Santa dos tempos modernos» (Pio X), mas porque, tanto Luís como Zélia, viveram o Evangelho tão plenamente quanto lhes foi possível.

O papa Paulo VI quis que as duas causas de Beatificação se unissem. João Paulo II declarou-os veneráveis a 26 de Março de 1994. Faltava apenas um milagre para a sua beatificação. E este teve lugar a 29 de Junho de 2002 em Monza, diocese de Milão onde o bebé, Pietro Schiliro, condenado à morte desde o seu nascimento por causa do estado dos seus pulmões, foi curado depois de duas novenas aos pais Martin. Um dossier médico de 967 páginas foi submetido aos médicos da Congregação para as Causas dos Santos que admitiram esta cura que não se explicava senão por um milagre. A 3 de Julho de 2008, o Papa Bento XVI assinou o rescrito (acto administrativo expedido pela autoridade eclesiástica) aprovando esta decisão.

Na pequena cidade de Alençon Luis Martin era relojoeiro-joalheiro e Zélia (nascida Guérin) bordadeira do famoso ponto de Alençon. Cristãos fervorosos, duma caridade concreta e efectiva, tiveram nove filhos. A mortalidade infantil, terrível nos fins do século XIX, levou-lhes quatro, dos quais dois eram meninos. Querendo dotar as cinco restantes filhas e não desejando mandar as suas empregadas para o desemprego, tiveram que trabalhar muito duro e inclusive padeceram a ocupação prussiana na guerra de 1870. Afectada por um câncer no peito, que se estendeu, Zélia teve a Teresinha aos 41 anos e a mais nova pôde salvar-se graças à ama Rosa Taillé, de Semallé. Teresinha não conheceu a sua mãe senão durante quatro anos e meio e recordou sempre estes anos cheios de amor e de alegria familiares.

Esgotada pela fadiga e pelos sofrimentos da sua doença, Zélia morreu a 28 de Agosto de 1877. O golpe foi tremendo para todos, especialmente para Teresinha que tardou dez anos a superá-lo.

Viúvo, com cinco filhas menores, Luís Martin fez um grande sacrifício de abandonar os seus laços alensonenses e veio viver para Lisieux onde o seu cunhado Isidoro Guérin, farmacêutico e sua esposa o ajudaram na educação das suas filhas. Viverá mais 16 anos e conhecerá também, «a sua paixão» na sua doença nos últimos seis anos.

Aceitou as vocações religiosas das suas cinco filhas.

Esta família «normal» não o foi totalmente porque viveu aquilo que Teresinha escreveria em 1887: «Amar é tudo dar e dar-se a si mesmo» (Poesia 54).