A docilidade ao Espírito Santo de Santa Maria de Jesus Crucificado Baouardy

HOMILIA DO SANTO PADRE FRANCISCO na missa da canonização das beatas Joana Emilia de Villeneuve, Maria Cristina da Imaculada Conceição Brando, Maria Afonsina Danil Ghattas e Irmã Maria Baouardy, carmelita de Belém.

Maria de Jesus Crucificado

Os Actos dos Apóstolos apresentaram-nos a Igreja nascente no momento em que elege aquele que Deus chamou para tomar o lugar de Judas no colégio dos Apóstolos. Não se trata de assumir uma carga, mas um serviço. Efectivamente, Matias, o eleito, recebe uma missão que Pedro define assim: «É necessário […] que um deles se torne, connosco, testemunha da sua ressurreição (Act 1, 21-22). Com estas palavras sintetiza o que significa fazer parte dos Doze: significa ser testemunha da ressurreição de Jesus. O facto de dizer “connosco” dá a entender que a missão de anunciar Cristo ressuscitado não é uma tarefa individual: é para viver de modo comunitário, como colégio apostólico e com a comunidade. Os Apóstolos fizeram a experiência directa e bela da ressurreição; são testemunhas oculares de tal acontecimento. Graças à autoridade do seu testemunho, muitos acreditaram; e da fé em Cristo ressuscitado nasceram e nascem continuamente as comunidades cristãs. Também nós, hoje, fundamentamos a nossa fé no Senhor ressuscitado sobre o testemunho dos Apóstolos chegado até nós por meio da missão da Igreja. A nossa fé está solidamente ligada ao seu testemunho como a uma cadeia ininterrupta estendida ao longo dos séculos não só pelos sucessores dos Apóstolos, mas pelos cristãos de geração em geração. À imitação dos Apóstolos, cada discípulo de Cristo é chamado a ser testemunha da sua ressurreição, sobretudo naqueles ambientes humanos onde é mais forte o esquecimento de Deus e a perda do homem.

Para que isto se realize, é necessário permanecer em Cristo ressuscitado e no seu amor, como nos recordou a Primeira Leitura de João: «Aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus nele» (1 Jo 4, 16). Jesus repetira-o insistentemente aos seus discípulos: «Permanecei em mim… Permanecei no meu amor» (Jo 14, 4. 9). É este o segredo dos santos: permanecer em Cristo, unidos a Ele como os ramos à videira, para dar muito fruto (cf. Jo 15, 1-8). E este fruto não é senão o amor. Este amor resplandece no testemunho da Irmã Joana Emília de Villeneuve, que consagrou a sua vida a Deus e aos pobres, aos doentes, aos presos, aos explorados, tornando-se para eles e para todos sinal concreto do amor misericordioso do Senhor.

A relação com Jesus Ressuscitado é – por assim dizer – a “atmosfera” em que o cristão vive e na qual encontra a força para permanecer fiel ao Evangelho, mesmo no meio dos obstáculos e das incompreensões. “Permanecer no amor”: isto fez também a Irmã Maria Cristina Brando. Ela foi totalmente conquistada pelo amor ardente do Senhor; e pela oração, pelo encontro coração a coração com Jesus Ressuscitado, presente na Eucaristia, recebia a força para suportar os sofrimentos e entregar-se como pão partido a muitas pessoas longe de Deus e famintas de amor autêntico.

Um aspecto essencial do testemunho a prestar ao Senhor ressuscitado é a unidade entre nós, seus discípulos, à imagem daquele existe entre Ele e o Pai. Ressoou também hoje no Evangelho a oração de Jesus na vigília da Paixão: «Que todos sejam um, como nós» (Jo 17, 11). Deste amor eterno entre o Pai e o Filho, que se infunde em nós por meio do Espírito Santo (cf. Rm 5, 5), recebem força a nossa missão e a nossa comunhão fraterna; dele emana sempre novamente a alegria de seguir o Senhor no caminho da sua pobreza, da sua virgindade e da sua obediência; e este mesmo amor chama a cultivar a oração contemplativa. Experimentou-o de modo eminente a Irmã Maria Baouardy que, humilde e iletrada, soube dar conselhos e explicações teológicas com extrema claridade, fruto do diálogo contínuo com o Espírito Santo. A docilidade ao Espírito Santo tornou-a instrumento de encontro e de comunhão com o mundo muçulmano. Assim também a Irmã Maria Alfonsina Danil Ghattas compreendeu bem o que significa irradiar o amor de Deus no apostolado, tornando-se testemunha de mansidão e de unidade. Oferece-nos um claro exemplo de como é importante tornar-se responsável pelos outros, de viver ao serviço do outro.

Permanecer em Deus e no seu amor, para anunciar coma palavra e com a vida a ressurreição de Jesus, testemunhando a unidade entre nós e a caridade para com todos. Isto fizeram as quatro irmãs que hoje foram proclamadas Santas. O seu luminoso exemplo interpela também a nossa vida cristã: como sou testemunha de Cristo ressuscitado? É uma pergunta que nos devemos fazer. Como permaneço n’Ele, como permaneço no seu amor? Sou capaz de «semear» em família, no ambiente de trabalho, na minha comunidade, a semente daquela unidade que Ele nos deu participando-a pela vida trinitária?

Voltando hoje para casa, levemos connosco a alegria deste encontro com o Senhor ressuscitado; cultivemos no coração o compromisso de permanecer no amor de Deus, permanecendo unidos a Ele e entre nós, e seguindo as pegadas destas quatro mulheres, modelos de santidade, que a Igreja nos convida a imitar.

Praça de São Pedro

Papa Francisco

VII Domingo de Páscoa, 17 maio 2015