Frei Jean Thierry do Menino Jesus e da Paixão (1982-1906)

Jean Thierry 2

BIOGRAFIA

 DE

 FREI JEAN-THIERRY EBOGO

DO MENINO JESUS E DA PAIXÃO

 RELIGIOSO CARMELITA DESCALÇO (1982-2006)

 SERVO DE DEUS

 Jean-Thierry nasceu a 4 de Fevereiro de 1982 em Mfou Awae, Camarões, a 15 quilómetros da nossa primeira Missão nos Camaraões – Nkoabang, segundo filho de oito irmãos. A mãe é professora das Escolas maternas.

 O pai é guarda de prisão e, por este seu trabalho será transferido mais vezes pelas diversas localidades dos Camarões, do Centro, ao Sul, ao Norte do país.

 Jean-Thierry seguirá a família nestas deslocações.

 Baptizado a 27 de Maio de 1982, recebeu a Primeira Comunhão a 29 de Maio de 1994 e o sacramento do Crisma a 18 de Fevereiro de 1996.

 Em Junho de 1982 obtém o Bacharelato série C e pede para entrar na nossa comunidade de Nkoabang, onde passa quase dois anos como aspirante e postulante.

 Em Junho de 2004 é aprovado para o Noviciado em Burkina Fasso com mais dois companheiros. Enquanto fazem todos os preparativos para a partida, uma dor na perna vem perturbar a sua vida. Pensa-se que foi picado por algum insecto e aplicam-lhe pomadas. Mas o mal não desaparece, antes aumenta sempre mais. Levam-no a um ortopedista que, depois de alguns exames, diagnostica um osteosarcoma. O médico propõe amputar a perna o mais rápido possível.

 Começam as consultas entre Camarões e Itália até encontrar resposta. Por fim, encontram uma cirurgião de oncologia que lhe aplica a quimioterapia preventiva, para que a operação seja bem sucedida.

 Jean-Thierry, embora com dor, dá o seu consentimento para a amputação, dizendo para consigo: «Se este meu sacrifício for para o bem da missão carmelita nos Camarões, aceito-o de livre vontade. O meu único desejo é ser religioso carmelita, se for possível».

 Depois da amputação da perna e da quimioterapia que lhe seguiu, parecia que tudo estava resolvido.

 Puseram-lhe uma prótese e, depois de algum tempo, a sua vida torn-se quase normal.

 Por isso, em Agosto de 2005 tomou-se a decisão, com o conselho do cirurgião que o operou, de trazer Jean Thierry para Milão, na Itália, a fim de prosseguir a sua vida religiosa e os estudos de filosofia e teologia.

 Enquanto concluíamos o processo das práticas burocráticas, o nosso jovem camarunense começa a sentir dores nas costas. A viagem para Itália foi para Jean-Thierry muito cansativa por causa das dores.

 Chegado a Itália, os médicos constatam que o tumor se espalhou pelo sue corpo. Os especialistas disseram-nos que a explosão do mal é semelhante a uma leucemia fulgurante.

 Começa então no Hospital civil de Legnano, onde a cintigrafia e a TAC diagnosticam que o tumor já invadiu muito do seu corpo, o Calvário que durará até 5 de Janeiro passado quando às 0, 15 da vigília da Epifania, depois de ter participado na Santa Missa, celebrada no seu quarto pelo P. Tomás e as orações pelos doentes e os moribundos, Frei Jean-Thierry do Menino Jesus e da Paixão, entrega o seu espírito ao Pai.

 Disse um calvário sofrido por Jean-Thierry, mas também um caminho de luz para ele e para os que o visitaram e estiveram breves momentos ou longas horas do dia e da noite à sua cabeceira.

 Posso afirmar verdadeiramente que todos os que se encontraram com ele nestes quatro meses de doença, primeiro em Legnano, depois no IPO de Candiolo, no qual se depositara muita esperança, nos 10 dias de Troffarello, em casa das Irmãs Camilianas e, por fim, novamente em Legnano na terapia intensiva dos cuidados paliativos, ficaram impressionados pela sua serenidade com que suportava o mal que lhe estava a destruir o corpo, pelas suas pacatas, sempre pertinentes respostas que mostravam uma maturidade e uma sabedoria que não podiam vir só da sua idade juvenil.

 Haveria muitos testemunhos para contar.

 Desde os primeiros dias da sua recuperação no Hospital de Legnano, a Doutora Annarita Braga, numa manhã, quando cheguei ao hospital, disse-me: “Quem nos trouxestes aqui para o Hospital?».

Pensando que fosse alguma coisa de desagradável, disse: «É um jovem camarunense…» e antes de terminar a frase, disse-me: «É um santo! Não é possível sofrer dores atrozes daquela maneira».

 Veio depois a partida para Candiolo (Turim), para o centro especializado para o osteosarcoma.

 Apesar do cansaço da longa viagem, da dor sempre presente e forte e o grave perigo de morte, chegados àquele centro, depois de cerca de uma hora de permanência naquele hospital, Jean-Thierry disse-me com um sorriso que mostrava toda a sua gratidão: «Agora sei que me trouxeram para um lugar omde farão tudo para me curar».

 Estava firmemente convencido de que ia ser curado para poder servir durante muitos anos a Igreja no Carmelo.

 Passado mais de um mês da terapia intensiva, em que parecia que o mal devia regredir, chegou um dia de Novembro em que a equipa médica de Candiolo, pela boca do Professor Grignani, nos disse que infelizmente as células malignas tinham progredido mais rapidamente do que as células benignas e que a metástase tinha invadido as costas e o fígado.

Os três médicos presentes estavam visivelmente a sofrer com isto. Falaram primeiro comigo e depois disseram as mesmas coisas ao Jean-Thierry.

 Fiquei impressionado, também daquela vez, com a compostura e a serenidade com que Jean-Thierry ouviu e aceitou aquele veredicto. E àqueles médicos, ainda visivelmente a sofrer, Jean-Thierry disse: «Obrigado por tudo aquilo que fizeram por mim».

Era o dia 14 de Novembro de 2005.

Voltou novamente para o Hospital de Legnano para a sala dos cuidados paliativos. A partir daquele dia Jean-Thierry pôs toda a sua confiança de cura em Deus.

 Muitos amigos de Candiolo e de Turim continuaram a vir visitá-lo e a estar com ele longas horas do dia e da noite. A todas aquelas pessoas (a quem agradecemos sincera e reconhecidamente) juntaram-se muitas outras pessoas de Legnano.

 Jean-Thierry tinha manifestado o vivo desejo de fazer a sua Profissão religiosa para ser carmelita teresiano com todas as aprovações e para sempre.

 Pedido esclarecimento à Casa Geral de Roma, depois de ter recebido a acta da Comunidade dos Camarões sobre o caminho de formação de Jean-Thierry, com o seu pedido para ser admitido à Profissão religiosa e depois de ter recebido a licença da Casa Geral de Roma para a Profissão religiosa, na tarde de 8 de Dezembro de 2005, solenidade da Imaculada, no seu quarto, revestido com o hábito religioso e a capa branca do Padre Jorge Perruzzoti, superior das duas casas dos Camarões, fez a sua Profissão religiosa com o nome de Jean-Thierry do Menino Jesus e da Paixão.

Foi uma cerimónia muito simples, mas muito bela e comovedora. Estava também presente a mãe de Frei Jean-Thierry, chegada uns dias antes dos Camarões, a qual, participou, com lágrimas de comoção e de alegria, na imensa alegria do seu filho, num dos dias mais belos e significativos da sua vida.

Foi o seu último triunfo cá na terra: com a Imaculada, com Santa Teresinha e todos os santos do Carmelo.

Depois de alguns dias em que Frei Jean-Thierry parecia novamente renovado, a doença retomou o seu caminho demolidor.

Um dia em que estava sozinho no seu quarto perguntei-lhe porque tinah desejado tão intensamente a Profissão religiosa. Porque, disse-me ele, o Senhor com a Senhora, me curará e eu quero ser carmelita para servir os meus irmãos e irmãs durante muitos anos na Igreja. E acrescenta: «Mesmo que me tivessem de amputar a outra perna, irei à Igreja em cadeira de rodas e ali no confessionário levarei muitas almas para o paraíso».

Perguntei-lhe então como podia ter a certeza de viver tantos anos. Respondeu-me que em criança tinha ouvido muitas vezes uma voz que lhe dizia que viveria muito tempo e que a sua missão na Igreja seria a de levar muitas almas ao Senhor através do confessionário.

Alguns dias depois daquela conversa, encontrei-me novamente a sós com Frei Jean-Thierry – quando chegava junto dele, as outras pessoas presentes, com fina delicadeza, saiam para o corredor – começamos a falar desta terra, mas também do céu.

Frei Jean-Thierry voltou a falar do seu desejo de servir a Igreja no Carmelo durante muitos anos, porque lhe parecia ser esta a sua missão. Respondi-lhe que poderia realizar a sua missão e, de modo mais eficaz e mais abrangente, também no Paraíso, como fizera Santa Teresa do Menino Jesus, a sua Padroeira.

Frei Jean-Thierry permaneceu calado com a minha resposta. Passaram três ou quatro minutos de silêncio embaraçado, depois calmamente, mas também com uma certa ansiedade que nunca tinha notado nele, respondeu-me: «Sim, o meu desejo seria o de servir durante muito tempo os meus irmãos, primeiramente aqui na terra».

Parou, durante alguns momentos, depois recomeçou, muito suavemente: «Mas se o Senhor quiser assim, aceito a sua vontade».

E, a partir daquele dia, vi quase sempre diminuir mais as suas forças físicas até à noite da sua passagem da terra para o céu.

Apesar disso, os últimos dias da sua vida terrena foram muito difíceis e dolorosos (a respiração tornava-se ofegante, a absorção punha-o num estado de pré-coma) mas estava sempre contente e enquanto podia, consciente e participante nas orações que rezávamos com ele.

Parecia então que só o Paraíso e tudo o que conduzia a ele, fossem as coisas que lhe interessavam.

Quantos testemunhos muito belos e significativos poderíamos aludir; espero bem que um dia possam ser escritos por aqueles que conviveram com ele, o conheceram e amaram nos quatro meses da sua estadia em Itália.

Posso dizer que todas as vezes que falava com ele ao telefone, à minha pergunta pela sua saúde, me respondia sempre assim: «Bem, muito bem, bastante bem». Como se tivesse que ser ele a dar coragem ao outros.

Frei Jean-Thierry do Menino Jesus e da Paixão, foste uma alma bendita cá na terra para todos aqueles que te conheceram e serás ainda mais bendito no Paraíso pela Missão que o Senhor te concedeu realizar: em favor dos jovens dos Camarões que desejavas trazer ao Carmelo, da Ordem Carmelita e de toda a Igreja.

 Superior da Província da Lombardia

 Gabriel Mattavelli