Papa Francisco: «Os missionários são glória da nossa Igreja!».

Homilia –
Missa de Corpo Presente de Dom Gonzalo López Marañón
12 de Maio de 2016
Felizes os mortos que doravante morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, descansem dos seus trabalhos, pois as suas obras os seguem.
Não vou fazer da homilia um elogio fúnebre: vou falar da Bíblia falando de Fr. Gonzalinho e vou falar de Fr. Gonzalinho falando da Bíblia.
Sua história entre vem de muito longe: 1582. Nesse ano, o último da vida de St. Teresa de Jesus, ela mesma enviou os primeiros carmelitas descalços a Angola.
Mas os dois primeiros grupos não chegaram a terras angolanas: um naufrágio segou a vida de um e os corsários fizeram o resto com o outro. A santa persistência fez com que, apesar das sucessivas infelicidades, um terceiro grupo, no ano 1584, chegasse a Angola. Quanta teimosia evangélica e evangelizadora precisamos hoje! Quanta coragem!
Os túmulos de Golungo Alto são testemunhas da acção meritória dos missionários carmelitas e a Igreja de Nossa Senhora do Carmo de Luanda, da sua sensibilidade artística e espiritual.
O ano jubilar teresiano (2015) foi preparado cuidadosamente: uma delegação já no fim de 2012 visitou várias dioceses de Angola vendo as necessidades da evangelização. Para que “se Deus quiser, em 2014 ou 2015, aquando das celebrações do V Centenário do Nascimento de Santa Teresa de Jesus, possamos alegrar no céu a Santa com o regresso dos seus filhos a estas terras que ela tanto sonhou alcançar”. (cito o portal dos OCD de Portugal)
Fr. Gilberto Hickmann e Fr Mariano Júnior cumpriram o desejo de St. Teresa em Calunda, lugar esquecido por quase todos. E Dom Gonzalo, depois de 40 fecundíssimos anos em Sucumbíos, somou-se ao grupo, humildemente, quase como quem apanha boleia. Assim se apresenta em 2014: Escrevo-lhe na Festa de Epifania= dia da Missão ad Gentes, para implorar-lhe, atrevida e confiadamente que me receba na sua diocese como missionário de a pé (sem patente): assim, direito e simples.
Não quero faltar nem atrasar-me na hora: tenho 81 anos e devo aproveitar meus dias: não estou “gagá”1 e ainda caminho. Tenho boa saúde e quero servir ao Senhor e à sua Igreja sobre os passos de Jesus, até ao fim.” Dom Gonzalinho, Epifania 2015
Recusou levar uma vida tranquila, ao merecido descanso depois de 40 anos de lutas pelos pobres, em que não se poupou para elevar a vida das populações; apostou aos leigos, à sua formação, del tal modo que assumissem o protagonismo da missão.
Porque “a missão é até ao fim”, como sempre falava.
Felizes têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus!
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!
Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus!
Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim.
Meus irmãos, ontem e hoje, em Sucumbios ou em Moxico, proclamar o evangelho, procurar a justiça, viver com coração de pobre, causa oposições, calúnias, invejas, ódios: tudo se suporta n’Aquele que nos fortalece.
1 “chocho” em castelhano.
Não pensemos que as bem-aventuranças são um caminho para a felicidade, elas valem por si mesmas e a felicidade vem por acréscimo. Não é que agora opto por ser pobre e por isso depois Deus me tornará muito rico, não! A pobreza evangeliza em mesma é um valor.
Quando a agitação, as dificuldades, o barulho exterior aumenta, o coração se purifica, se eleva, vê longe, tem metas altas e não desiste delas vê: quando o coração é livre de ambições a distância entre o sonho e a realidade se encurta.
Não nos deixemos enredar com palavras que nascem mais do desespero e que não levam a uma saída: é possível um desenvolvimento espiritual, apesar da crise moral que passamos, que nos afeta a todos; não que pretendamos dar lições a ninguém, mas sabemos que com a ajuda de todos, podemos sair. É possível vencer os males que nos aqueixam: a corrupção, o atraso, a miséria, o alcoolismo, a falta de perspectivas na vida, os lares desfeitos, a procura de soluções mágicas para resolver de forma imediata os nossos problemas. Não podemos renunciar aos sonhos em relação a esta Igreja, à nossa cultura, ao trabalho, à vida.
A transformação que desejamos não virá do luxo, mas das bem-aventuranças.
Precisamos de um pensamento sereno, mas firme, orante e operativo, lúcido e perseverante, que une forças, encoraja e não dispersa, que motiva a caminhar juntos, como reza o nosso sínodo diocesano. Quem ora em verdade move o mundo: penso nos sinais que coloca o Papa. Ele reza, discerne e age. Que ora move o mundo: onde residia a fonte da criatividade de Dom Gonzalo? Na oração, e ele rezava muito! Lembrem: quando o rei Muanga II, de Buganda quis induzir os jovens da sua corte ao pecado, proibiu-lhes rezar. A firmeza dos adolescentes mártires de Uganda provinha da oração.
Permitam-me partilhar um trecho de uma carta que Mons Gonzalo escreveu à irmã e que ela, pela sua vez, repassou para nós:
“Ontem um menino de não mais de dois anos passeava de aqui para lá como um passarinho curioso. Acenei-lhe, veio até mim e sentei-o no meu colo: adormeceu… até ao final da missa. E em estas condições passei de concelebrante, a sentir-me quase como a Virgem. E eu olhava o menino, tão sereno e feliz dormindo no meu colo, e pensava: pois, mais ou menos (ou mais que menos), assim nos tem a todos o papá Deus em seus braços.
É tudo tão estranho! Devo reeducar-me e ver como me faço mais Jesus, não para sobreviver senão para viver aqui com os cinco sentidos e algum outro mais.
Não estou no Paraíso, mas procurei este lugar para a minha morada final e estou muito bem, o que não quer dizer que tenha uma vida fácil.
Aqui não há inquietação; estamos, por sorte, longe da mentira e da hipocrisia desmesurados que têm comido o mundo. Tenho a sensação de que poderei dar-me ao que não se leva o vento e centrar-me no creio até ao final. E tendes que saber que não esqueço de vós e os ponho em Deus.
Quando rezeis, recordai-vos de mim: não quero ser frouxo/fraco”, senão completar segundo a vontade do Senhor a tarefa que me ele me reservou.
A vida e a fé me ensinaram que quando as coisas vão limpas e claras, as metas se cumprem muito mais do que o esperado, ainda que nos assuntos de menor importância. Não se deve desistir facilmente dos nobres propósitos e na conquista dos ideais pelos quais merece a pena viver. Esta é, me parece, a razão da minha alegria, que ninguém me pode tirar, e uma constante da minha vida,
que foi um grande dom de Deus para mim, como uma em cada dia a mais bela aventura.
Que sejais muito felizes e vos cuide o Bom Jesus, vos deseja este náufrago desde as profundidades desta terra Áfricana”.
O difícil quando alguém morre é repartir a herança.
Ele morreu pobre, tal como viveu; por isso não nos deixa bens materiais:
A primeira herança que deixa é Calunda. Como trabalharam estes três carmelitas descalços para construir a casa e animar as comunidades! O seu suor banhou as terras altas de Calunda, e hoje estão vazias. Mas desde o seu silêncio Calunda renova eloquentemente o convite aos missionários.
Deixou para mim bispo, a lembrança dos seus óculos: graças a eles o peço desejo que meu olhar nunca se habitue a considerar normal tanta miséria, económica, cultural/académica, moral e espiritual. Se a miséria não nos dói, não poderemos fazer muita coisa. Precisamos desses óculos para que possamos construir uma sociedade mais aberta, plural, rica de iniciativas estimadas e acolhidas sem preconceitos. Preciso desses óculos para perceber a sede de Deus, do Evangelho e da Eucaristia em tantos irmãos e irmãs que se deixam seduzir por tantas crenças que não conduzem às fontes de águas limpas. Preciso desses óculos que nunca perca a sensibilidade face a todas estas coisas.
Deixou para os nossos seminaristas e padres o coração, um coração livre das amarras dos interesses particulares, para dedicar-se a Jesus e ao seu povo não só por um tempo, mas para sempre, até ao fim. Essa é a nossa herança.
Para os leigos/as deixou as suas mãos: caríssimos irmãos e irmãs, sem vós não há igreja, o vosso compromisso é necessário, é indispensável. Acreditamos no nosso baptismo, acreditamos que somos capazes de santidade, que somos capazes de caridade, até ao ponto que não deveria existir entre nós algum necessitado, pedinte ou criança que viva na rua. Com essas mãos, seremos actores/batalhadores da missão, para que ninguém perca o ânimo pela falta de fé. Cada um trabalha fazendo frutificar o dom que recebeu: é o sonho de uma igreja rica de ministérios.
Para os carmelitas descalços deixou as suas sandálias, para andar, para ir às periferias, para ir às periferias das periferias, para aceitar a missão. Dom Gonzalo era muito consciente que a sua presença, a sua morte e o seu sepultamento aqui no Luena seria um recado irrefutável para o reverdecer da missão ao interno da Ordem.
Neste ano, quando o regresso dos seus colegas estava confirmado, por ordem dos seus superiores, humildemente veio pedir uma palavra para definir a sua permanência na Diocese. Respondi com uma carta, a última que lhe escrevi, a 28 de Fevereiro deste:
Aceito este oferecimento com lágrimas nos olhos, com admiração e muito respeito. Certas opções manifestam a profundidade e radicalidade da nossa entrega, sobretudo quando feita, como neste caso, cuidando até aos mínimos detalhee e, ao mesmo tempo, com atitude de fé humilde e operante. Querido irmão, és para mim, pessoalmente, fonte de motivação e de entusiasmo vocacional.”
2cor4,16 Por isso não desanimamos. Ainda que se vai nosso homem exterior vai-se arruinando, o homem interior, aquilo que há em nós de mais profundo, renova-se de dia para dia.
A imagem muito clara: o corpo vai desfazendo-se enquanto o espírito que o anima cresce. O olho vê um fiozinho de água, mas o coração vê um Zambeze transbordante na plenitude das chuvas.
7
Aos 82 anos Dom Gonzalo ainda estava cheio de vida, entusiasmava-se com tantos projectos: evangelização, oração, agricultura, educação, e tudo organizava com a sabedoria de um mais velho experiente e a energia de um jovem recém chegado.
Seu colega de missão, Fr. Mariano Júnior, escreve-nos no dia 10 de Maio: Seu desejo era ser enterrado em Calunda, lugar que, segundo partilhou comigo e frei Gilberto, foi bem escolhido pelos provinciais que em Angola vieram em 2012 para eleger um lugar para a missão; bem escolhido porque Calunda é uma região esquecida por quase todos, periferia de periferia.
Que possas cantar na Eternidade as maravilhas do Senhor.
Assim seja.
+ Tirso Blanco, SDB Bispo de Lwena
12 de Maio de 2016

 
Sucumbíos
Carmelitas
Todos nós aqui reunidos, bispos, sacerdotes, diácono, religiosos e religiosas, seminaristas, queridos fiéis amigos e irmãos. Todos temos no coração este servo de Deus, recordamos a sua vida e a convivência com ele. Recordamos histórias que apresentavam a sua personalidade: humildade, simples e ardosa.
A Eucaristia a que celebramos fecha com chave de ouro esta vida missionária, episcopal, missionária, esta vida de cristão autentica que iniciou-se em país longínquo, Espanha. Equador e finalmente Angola (Calunda-Moxico). O seu zelo pela Igreja e pela missão trouxe-o até nós.
Hoje então dizemos: obrigado dom Gonçalinho! Pela sua vida e pelo seu testemunho. Todos nós, de uma maneira ou de outra fomos contagiados pela sua simplicidade. Manteve um modelo de proceder invariável e que o tornou amado e admirado por todos que o conheceram. Suave nas palavras, firmes nos princípios, forte na ação. Assim queremos recordá-lo