Ponto Carmo

Amigos fortes de Deus, precisam-se!

1.  Hoje, domingo, 16 de outubro, estamos ainda sob a gloriosa luz da Festa de Santa Teresa de Jesus, nossa mãe. O seu dia é a 15 de outubro; o dia depois, ainda por cima domingo, é também seu dia. E que bem nos faz lembrar, hoje também, a mãe! Bem podíamos lembrá-la sobre muitos aspetos; lembrá-la-emos, porém, apenas sobre um: a amizade. De facto, não se pode falar de Santa Teresa sem se falar de amizade. Ignorar ou não valorizar o valor que ela lhe atribuía é não conhecer a Santa, visto que ela tanto estimava e promovia a relação e a comunicação entre duas pessoas, como forma de colaboração no bem mútuo, e como meio da mais autêntica realização como pessoa. Até, talvez, seja impossível lembrar na história da Igreja quem tão bem tenha sabido fazer amigos, tão bem os tenha tratado, e tanto deles tenha precisado.

2. Na família nascemos, os amigos conquistámo-los. De si Teresa diz que quem lhe desse meia sardinha ali teria uma amiga para sempre! E parece que era verdade, pois o seu carácter gentil e extrovertido sempre lhe foi propício para fazer amigos!
Quando fala de si, não sabe não falar de amizade. Diz-nos, por exemplo, que na adolescência foi muitíssimo amiga de seus primos, e quase se perdeu porque a levaram a amar «as vaidades do mundo»! Teve também uma profunda amizade com uma criada, esta ainda mais perniciosa que a dos primos.
Em face destes perigos, don Alonso, seu pai, atento e cuidadoso, logo tratou de interná-la (por ano e meio) como donzela secular no mosteiro de Nossa Senhora da Graça — donde, abrupta, regressará a casa por questões de saúde. Naquele colégio ganhou a estima e a amizade da Irmã Maria Briceño, e é graças a esta que a sua vida começará a mudar de rumo; a maneira como aquela monja falava de Deus e o testemunho da sua vivência pessoal levou Teresa a ponderar tornar-se freira, ao menos «para não se condenar eternamente».
De novo em casa, reacende a amizade com a Irmã Juana Suárez, do mosteiro da Encarnação; e decide ir-se de freira para aquela comunidade. Quando o comunicou a seu pai, logo ele se opôs. Ante aquela negativa Teresa cala-se, mas não vencida — entrará ali, aos vinte anos, aproveitando certa madrugada para fugir da casa paterna.

3. Ei-la no Carmelo. Não é ali de todo uma freira imperfeita, mas está longe de ser um arauto da perfeição ou um galaaz dos «amigos fortes de Deus». Ali passará vinte e sete confortáveis anos, durante os quais resplandecerá a sua prudência, amabilidade e caridade que a todos conquistavam. Ah, e outra coisa tomará sempre a peito: «prestar atenção aos sermões, por piores que fossem»!
Vivia Teresa ali havia 25 anos, quando numa tertúlia de amigas que se dava na sua espaçosa cela — tertúlia composta de jovens monjas e jovens senhoras seculares — uma sua sobrinha a desafiou a empreender a maior aventura da sua vida: a fundação do pequenino carmelo de São José, o mesmo é dizer, a reforma da Ordem do Carmo! Teresa resistiu, embora a ideia lhe agradasse, até que um dia, depois de comungar, o seu bom Amigo Jesus a animará a deitar mãos à fundação.

4. E despedindo-se da Encarnação — das mudas testemunhas de sua abençoada trajetória: a porta pela qual ingressara no mosteiro, as paredes abençoadas, o locutório onde Nosso Senhor a repreendera por deter–se em conversas mundanas, a cela em que habitara e onde tantas vezes com Ele se entretivera em colóquios sobrenaturais, a escada onde certa vez encontrara um belíssimo Menino que lhe declarou ser «Jesus de Teresa» — Teresa subiu, ligeira, a colina de Ávila, levando consigo «quatro pobres órfãs e grandes servas de Deus», e o indispensável para a sua fundação de mulheres «descalças».
A inauguração — a 24 de agosto de 1562 — causou grande rebuliço na cidade. Nesta mesma tarde, os superiores repreendem-na, mas não a proíbem, apesar do mosteiro ter estado a pontos de ser demolido pelas autoridades. Valer-lhe-ão naquela tempestade os amigos São Pedro de Alcântara, São Luis Beltrão, o bispo D. Alvaro Mendoza, don Francisco de Salcedo, o Padre Gaspar Daza, o Padre Domingo Bañez, doña Guiomar de Olloa.

5. Restam-lhe vinte anos de vida e ela não o sabe. Fundará 17 mosteiros de freiras — 15 em pessoa; e dois de frades. Como é que tal se consegue? Pois, assim de fácil: animando jovens vocações a encher os mosteiros «descalços», apoiando-se nos amigos, confiando em Deus e vivendo sem jamais perder a paz.

6. Nos seus empreendimentos e fundações as amizades foram-lhe imprescindíveis: as seculares, homens e mulheres, monjas, bispos, padres e frades; gente dos negócios, das universidades, da nobreza — incluindo o rei — e outros tantos do nível mais humilde. E se uns se volverão seus inimigos, jamais ela perdeu o pé; outros, porém, ajudá-la-ão a ser fundadora e santa, a avançar no caminho da perfeição e a dar o melhor de si. E teve um companheiro que lhe sabia ler e guiar a alma com a luz do Espírito Santo: São João da Cruz, o pai da sua alma! Ah, mas sobretudo confiou em Deus, porque: «ninguém tomou a Deus por amigo que Ele lhe não pague».

7. E isto, sim, isto ela nos ensinou: a sermos «amigos fortes de Deus», e a sabermos estar com Ele a sós, e com muita frequência, porque aqui todos havemos de ser amigos, entre nós e com Ele, mesmo que o mundo se afunde!

Frei João Costa
.carmo | nº 211 | outubro 16 2022