1. Mês de novembro, mês das almas. Como por nós é sabido, as representações dos santos de Deus são modos de sublinhar ora esta ora aquela característica, com a intenção de que seja dito a quem os contempla, em imagens ou pagelas, aquela particularidade que os define e distingue dos demais. Por exemplo, santos há que são representados com uma caveira na mão!
Sempre a visão da caveira me repulsou, embora agora melhor a entenda: Aqueles santos que assim são representados, mormente com a caveira posicionada no antebraço, estão a dizer-nos que foram homens e mulheres que passaram grande parte da vida em considerações sobre a morte!
2. Para a mentalidade dos dias de hoje existem melhores considerações em que utilizar o tempo, nomeadamente em nada considerar. Porém, não é de todo inútil pensar no fim e na morte. Pelo contrário. Mal algum não há em perspetivarmos a morte, como se morrêssemos hoje. Sei que muitos se assustam em pensar tal, mas que mal haverá em pensar nisso, nomeadamente nas coisas que restariam diferentes depois da nossa morte?
Muitos recusam-se a perspetivar tal, sim, por tal ser o pavor que o assunto lhes mete. Mas se hoje tanto se assustam, e não estão preparados para morrer, melhor estarão amanhã? Creio que não; por isso, melhor seria, ou pelo menos mais verdadeiros seríamos se encarássemos o assunto de frente, porque uma coisa é certa: a vida neste mundo é passageira.
3. No Evangelho deste domingo escutaremos a voz de Jesus reafirmando o nosso Deus como um «Deus de vivos», jamais de mortos, por que para «Deus todos estão vivos». Ora, se Jesus o diz, quem seremos nós para o negar? É verdade, não o podemos negar, não é certo, porém, que de coração aberto e pacificado assumamos tais palavras de Jesus, e por duas razões: i) É verdade que este mundo é injusto e passageiro, mas também é verdade que nos assustamos com o desconhecido, pois ninguém gosta de dar um salto no vazio; que haverá, afinal, do lado de lá da morte? Que nos espera do lado de lá? ii) E mais: A verdade é que este mundo passa; porém, porque nascemos nós para um mundo passageiro? Que justiça há em que se nos dê uma coisa que em breve nos será tirada?
É incompreensível e assustador.
4. As respostas a estas perguntas são complicadas e nada consensuais. Para uns nada existe do lado de lá da morte; para outros, existe, sim, pois é-lhes inconcebível o nada, o vazio, o desaparecermos num poço sem fundo. A mim também. Para mim, até a breve existência duma florinha tem sentido, quando mais a nossa! É verdade que eu já fui jovem, que me fui apercebendo de mim no abrir dos olhos e no ver-me crescer. E agora… agora vejo-me a mirrar, o corpo a falhar, deteriorando-se mais e mais, a cada ano que passa, respondendo pior.
Já sinto isso, sim.
Nunca me senti eterno, mas anos houve que me duraram uma eternidade a passar; agora, meu Deus!, agora, quando de manhã acordo, já é Dia de Finados! Cada vez me dou mais conta que não poderei contar com o meu corpo para sempre: antes nunca tinha frio, saltava como um cabrito, perseguia em campo um avançado com a fúria de uma chita, dormia até ao meio dia. Agora não, agora é mais sofá, mais leitura, menos memória, menos agilidade. Isto apaga-se, é o que de mim vou considerando! Cada vez mais vou pensando que um dia terei de dispensar o meu corpo. Claro que o assunto não é pacífico, que tal me vai custar muito. Afinal, é ao espelho que me reconheço, que sei quem sou. Mas lá que vou ter de dispensá-lo, lá isso vou!
5. Um dia apagar-se-ão as energias do meu cérebro, morrerá a candeia dos meus olhos e a lâmpada da minha consciência. Mas não será o fim, que de mim algo restará – eu mesmo!
6. Não me perguntem como serei do lado de lá, que eu não sei como serei. Quero-me, sim com memória, com carinho e ternura pelos que amei, com gratidão pelos que me ajudaram, com beijos quentes, de coração a coração. Quero-me não sei com que saberes, mas até nem importará muito o que saiba ou não, importar-me-á amar e ser amado, amar a terra que me amamentou, as plantas que me fizeram cócegas na planta dos pés, os bichos tão diversos que me surpreenderam nas voltas do caminho, o céu que me fez ousar. Quero-me com sonhos, embora auspicie que o que me aguarda não caiba dentro de sonho algum. Quero-me saber eu, eu mesmo, eu que aprendi, que cresci, tomei pão nas mãos e o abençoei, e distribui. Quero-me saber eu, jamais difuso, jamais diluído. E quero-me agradecido a meus pais e a meus irmãos, aos meus amigos e benfeitores, a quem, mesmo com sofrimento ou tédio, me ensinou a ser homem. E mais isto peço ao Deus dos vivos: quererei saber-me filho de um homem e de uma mulher. Nunca um deus.
7. Recuso-me a ser como uma onda do mar que se perde na areia ou se parte nas rochas. Não me quero fracassado, não serei fracassado. Não me quero sem-sentido nem imerso e inapto no absurdo. Quero a Deus, o Abbá de Jesus e meu, aquele que por Jesus me prometeu uma mansão. Não, não preciso que seja uma mansão, basta que haja uma porta onde o Vivente esteja de braços abertos para me abraçar! Que se Ele é vivo, como há de Ele querer-me morto para sempre?
Quero o Deus dos vivos!
Ámen!
Frei João Costa
.carmo | nº 214 | novembro 06 2022


