1. No domingo V do Tempo Comum, ciclo C, somos todos levados pela mão do Evangelista Lucas às margens do Lago da Galileia – ou melhor, para dentro da barca de Pedro. Por aqueles dias, por ali, ao derredor, vivia Jesus anunciando a Boa Nova às multidões que, enfileiradas, O seguiam e, sedentas, O rodeavam, ávidas de escutar, bem elas o sabiam, a Palavra de Deus que brotava fresca do manancial da Sua boca. Naquele propositado cirandar, ia Ele anunciando e ensinando, e haveria também de chamar discípulos para O seguirem, a fim de que depois de beberem da sua Palavra, continuassem a sementeira como pescadores que espalham redes e sabem chamar e integrar os demais nos caminhos da esperança e da salvação.
Depois de ter estado algum tempo com João Baptista, Jesus estabelecera-se, finalmente, em Cafarnaum – cidade de Pedro e André. E pregando pregava sozinho, mas em breve, não tarda, vê-lo-emos rodeado de discípulos.
2. Vale a pena determo-nos em quatro pequenos sinais deste relato de Lucas (5:1-11). Poderiam ser mais, serão apenas quatro.
Estando nas margens do Lago, Jesus encontrava-se rodeado e até apertado por imensa multidão; e para se lhe dirigir (a fim de a ensinar, confortar e guiar) houve necessidade de subir a uma barca e falar-lhes desde ali. Isto parece ser um facto, não apenas uma intenção; mas eu vou mais pela intenção. Ora, pois; a primeira coisa que eu reparo é essa mesma: metendo-se Jesus, intencionalmente, na barca de Pedro, mete-se com ele (quer Pedro o saiba, quer não). De facto, coisas há que um homem pondera bem: se se deve meter ou não no carro de outro homem. No carro ou no barco… Reparemos: Pedro andara na faina toda a noite (e nada pescara, como mais adiante confessará; e é óbvio que Jesus o sabe e bem o lê, ou adverte, no cansaço e desilusão de toda a equipagem, não apenas nos olhos e nos braços moídos de Pedro.). Ora, então, Jesus apercebeu-se atempadamente de toda a frustração do Resmungão (sim, Pedro passa os Evangelhos a resmungar!) e ainda se mete com ele?! Sim, porque meter-se dentro da sua barca é como meter-se na vida de Pedro, é picar-lhe a resmunguice, é condicionar os seus movimentos e a orientação que tem de dar aos trabalhos do dia, é igual a incomodá-lo e a pisar-lhe os calos! Então, isso faz-se, Rabi?
Quem és tu, ó carpinteiro, para te meteres ao comando duma barca, para mais com o patrão dentro? Isso faz-se?
Pois, parece que se faz, sim, que Jesus tem uma ganda lata! Cá para mim, sinceramente, entendo que, ainda hoje, até o sagrado espaço laboral de um homem (ou mulher) é o espaço propício para Jesus se meter com alguém. Ninguém, nem mesmo o mais profano, macambúzio seja, resmungão seja, está livre disso, porque se Jesus se prantou na barca de Pedro e perante os seus morros, poder-se-á passar o mesmo contigo, comigo. Sim, se Jesus se meteu na barca de Pedro, amanhã poderá incomodar-te quando estiveres ao volante do teu Uber; quando estiveres a servir cafés na esplanada; no mercado, no escritório, no centro de treinos ou no gabinete donde governas, na cozinha onde preparas a sopa para o teu filho, no espaço onde fazes voluntariado, no laboratório onde testas novas soluções ou no arquivo onde desempoeiras a patine dos séculos.
3. Naquele dia, para falar às multidões, Jesus subiu à barca de Pedro. Cá eu desconfio que, mais que ensinar as multidões, interessava-lhe meter-se com Pedro. Sim, definitivamente, mais que as multidões, Pedro era o verdadeiro objectivo de Jesus.
4. Outra reflexão: se é certo que a barca representa a vida de Pedro (a quem naquela hora ardilosamente Jesus tanto pica!), também é óbvio que representa a Igreja; a de ontem, a de hoje, a de sempre. Àquela hora, aquela barquinha fagueira, orgulho de seu mestre, representa tantas conquistas de Pedro – uns dias, fanfarrão; outras, resmungão; como também os seus fracassos e frustrações. (Sim, como entre as demais, Pedro tem alegrias fartas, e tem também algumas duras noites que simplesmente vão para o maneta, porque nelas não pesca nada, a não ser algas que lhe enchem as redes e, se acaso, só dão para estrume, jamais para alimentar a família ou para vender!). E representa e representará sempre a Igreja que somos – frágil, desprecavida, parada e permanentemente à beira do abismo. Custa-me muito a crer que, naquela hora, Jesus tenha escolhido a barca de Pedro por ser a mais bonita, ou a mais veloz ou a mais capaz. Cá para mim, haveria por ali barcas bem melhores que a de Pedro!; e noutros lugares, não muito longe, naves fortificadas e quase invencíveis, e outras bem mais luxuosas e arrumadas. Mas não, Jesus nunca fez opções olhando à marca, à capacidade, à altanaria ou ao luzir do estatuto. Nunca buscou só por si vidas esbeltas, currículos perfeitos; nunca, por si só atraiu modelos irrepreensíveis. Sim, naquela hora, Jesus buscava a Pedro, não por ser perfeito, mas por ter um coração valente e disponível; e, desprecavido, Pedro nada sabe nem suspeita que o Rabi anda à pesca de corações assim. Sim, Jesus vê, lê e já lança o anzol em busca de corações com cicatrizes, de vidas cansadas e vazias, de mentes desiludidas, de bocas prontas a explodir e a barafustar com a vida, por tudo e por nada.
5. Cuidado, amigo! Cuidado, amiga!
6. Repara bem: olha que para anunciar o Reino, a Jesus apenas bastou uma barca vazia, redes enredadas e um homem cansado e frustrado! Tão-só! E não, não fez entrevistas nem selecionou entre os mais capazes – apenas vasculhou e escolheu entre os vencidos da noite e os derrotados pela frustração. Isso, ontem; hoje, também. Cuidado, pois!
7. Restam-me dois pormenores mais: o distanciamento imposto à barca e o remar sob o comando de Jesus.
8. O ligeiro afastamento da barca em relação à praia (que Jesus logo demanda), pode querer dizer que a Igreja está no mundo, mas não deve manobrar segundo os critérios do mundo. E cá para mim, diz isso meso, sim. Enquanto Igreja, estamos no mundo, sim, mas distanciamo-nos (sem nos isolarmos) do mundo. Não reagimos aos impulsos, nem nos condicionamos por critérios alheios – o nosso é o florir da Palavra de Deus e a atenção aos irmãos. Não decidimos por pressão das redes sociais, nem ponderamos depois de lermos sondagens. É mesmo olhando a vida de Jesus. Acreditamos Nele, temos fé na Sua palavra e por isso remamos mar adentro e deitamos as redes. E seja o que Deus quiser…
9. E que dizer do remar mar a dentro – sob o comando de Jesus, o carpinteiro – para voltar à faina em pleno dia, e logo alcançar uma pesca nunca vista? Não há muito a dizer ou, talvez por isso mesmo, haja muito para dizer! É que não se pesca de dia (quando os peixes moram no fundo) mas de noite, quando eles andam pela rama.
Se me ponho a imaginar, imagino a cabeça de Pedro andando à roda com a ordem de Jesus: – Pessoal, toca a remar! Pedro, toca a trabalhar! Esta é a hora! (Então, não sabe Jesus que não se pesca de dia?; sim, talvez não soubesse, pois era carpinteiro, não pescador… mas o que Ele não podia ignorar era o cansaço e a frustração de Pedro mailos da sua companha. E sabendo isso, ainda os mandou pescar?! Ai, Jesus! Ai, ai, se te apanho, quantas não te direi, que isso não se faz!…
10. Sim, sim, o que por mais que os anos passem sobre mim e me levem o cabelo, o que sempre mais me impressiona é mais bem outra coisa; e é esta: Como é que Pedro permitiu que Jesus lhe comandasse a barca? Como é que o experiente pescador com o seu quê de rufia fanfarronado, mais que treinado a enfrentar tempestades e abismos, nevoeiros e trovoadas, como é que ele, à luz do dia, se fez mar adentro, para pescar, contra todas as regras, e sob a voz de um carpinteiro? Eu não duvido que Jesus e Pedro eram amigos, nem duvido que o Rabi, desde dias pretéritos, já tivesse alcançado ascendente sobre o pescador – eu não duvido jamais disso; ou não fossem os dois que tais! O que eu estou por perceber é como, num repente, o Carpinteiro se volveu mandão da vida do pescador? Como se lhe impôs e lhe deu ordens com voz de comando, como quem manda, como quem não admite recusa, como quem sabe governar uma barca e a vida de um homem autónomo e com vontade própria? Como é que Pedro permitiu tal?; mais: como não se apercebeu ele que, falando, e falando, e falando, Cristo apenas esperava que aparelhasse tudo, até que depois de tudo pronto, a barca pudesse partir novamente? Enfim, como é que Pedro aceita a derrota, limitando-se apenas a gemer: «Mestre, andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada. Mas, já que o dizes, lançarei as redes»?
Diz-me, Pedro, se também eu serei Pedro, eu que tanto gosto da minha falua. Diz-me…
Sim, Pedro, eu não percebo nada do que te sucedeu naquele dia; e apenas por isto: eu não estava na tua barca. Mas o que eu gostaria mesmo de saber, talvez para me prevenir, era o que Jesus ali (te) disse durante toda aquela manhã. Que palavras é que Ele (te) falou? Que palavras é que Ele repisou? Enfim, Pedro, eu imagino-te ali preso na barca; preso sem ter para onde fugires, pois havia água entre a barca e a praia; preso e calado, sorumbático, a lamber as feridas da derrota. Preso, e sem o saberes, acorrentado ao teu Rabi! Eu imagino-te a pôr tudo alinhadinho e direitinho – redes e anzóis –, para logo mais tarde, quando caísse a noite, recompostas já as forças, regressares de novo ao mar para uma faina exitosa. Eu imagino tudo isso. E imagino Cristo controlando os movimentos do teu corpo, mãos e pés, enquanto trabalhavas; controlando, sobretudo, os sobressaltos do teu coração, sob o efeito das suas palavras! Imagino-O a sorrir, provocadoramente, sob o bigode, enquanto te tinha preso e te controlava os movimentos pelo canto do olho. Eu vejo-O a colher e a medir os efeitos das suas palavras em ti, mirando e sopesando as tuas reacções mais mínimas. Repisando aqui e ali, até que tu ficaste no ponto de rebuçado, pronto a cederes no momento mais improvável.
Eu sei que naquela manhã, com todas as defesas em baixo, depois de te invadir a barca, falando, Jesus falava para ti, sobretudo para ti, sem tu o advertires! Sem o saberes eras um homem ferido (isto é, aberto, disponível) e indefeso. E se um dia me encontrar contigo, ó Pescador, se tivermos oportunidade de tomarmos uma cervejinha juntos, enquanto dás descanso às chaves, o que te perguntarei, será: – Ó meu Tótó, e tu não reparaste que, falando desde dentro da tua barca, Jesus te estava a fazer a cabeça?
Frei João Costa
.carmo | nº 309 | fevereiro 9 2025


