O meu Amado é para mim e eu sou para o meu Amado.
Maria Madalena foi ao sepulcro e estava escuro, não só no éter, mas também no seu coração. Mas o esmagamento da tristeza não paralisou Madalena, impulsionou-a.
Eis naqueles passos o reflexo da esperança. Pois assim como Cristo derrotou a morte e saiu do sepulcro, Madalena derrotou o sofrimento e saiu de casa. Estava infeliz, mas com esperança.
Isto é a prova de que quem já conheceu verdadeiramente Jesus no seu interior, tudo supera. Quem crê no seu amor e na sua Palavra, tudo supera. Os três inimigos da alma, – o maligno, o mundo e a carne –, já não têm força nem domínio. E a prova disso é que Maria Madalena saiu de casa enquanto ainda estava escuro, destemida. Atravessando a noite escura dos sentidos e do espírito, foi guiada pela fé, a esperança e a caridade. Isto é a Graça de Deus.
No escuro, em silêncio, sozinha, indo junto dos sepulcros dos cadáveres: eis a alma que já nada teme, talvez nem sequer de perder a própria vida rodeada de tantos perigos, de tão esquecida de si própria que está. Pois o seu coração já não está senão inflamado de paixão por Jesus, absolutamente consumido pelo fogo ígneo do Espírito Santo.
Junto da cruz e junto do sepulcro, eis a alma que como o Salmista atravessa o vale dos mortos, abismos e sendas tenebrosas, mas plena de vida e de graça, a exemplo do que desabafava São Paulo: «Já não sou que vivo, mas Cristo em mim».
Sim, Maria Madalena foi; simplesmente foi ao encontro de Jesus. Triste, abalada, derrotada, mas com esperança. E nós, que porventura sofremos com depressão, fadiga, tédio e que perdemos a vontade de viver, vamos ao encontro de Jesus no Santíssimo Sacramento e nos pobres?
A felicidade e a alegria não se exercitam, nem se prescrevem nem se simulam: mas comungam-se. Só existe uma única vitamina e antidepressivo verdadeiros e eficazes: a Eucaristia. Larguemos tudo e corramos para as Bodas do Cordeiro, ao encontro do Pão dos Anjos, comungar a própria alegria, paz e saúde.
Ainda que de rastos, tristes e no escuro, enfrentando a descrença e a desconfiança dos nossos amigos e familiares, tidos como loucos e fanáticos, caminhemos para a luz com esperança. Tomemos o exemplo desta gloriosa e bem-aventurada apóstola de Jesus e, como ela, confiemos no único que é digno de toda a confiança: Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado, glorificado e sacramentado.
Para que um dia também nós, os melancólicos junto do sepulcro, possamos correr em direção ao povo de Deus, mas também de todos os povos e nações, crentes e descrentes, cristãos e pagãos, e possamos dizer a Pedro e a João, com o rosto brilhante como o de Moisés para espanto de muitos: «Vimos o Senhor!»
Sim, o Império Romano ainda está de pé; poderia estar a chorar, mas EU VI O SENHOR.
[No domingo da Ressurreição de 2025]
José de Barcelos


