Meu bom irmão,
Após ler a carta que me enviaste, fico muito agradecido com a confiança que me mostraste!
Como sabes, a minha experiência é pouca e sabedoria quase nenhuma, mas, porque me pedes, vou tentar escrever um pouco sobre a vocação, que no fundo me parece ser a nossa resposta ao Jesus que nos procura…
«…Eu…te chamei pelo teu nome»
Recordo-me sempre da passagem em que Jesus chama Maria Madalena pelo seu nome, por que sinto que o mesmo se passou comigo, mas com a diferença de que não foi bem chamou, mas sim tornou a chamar.
Senti a predisposição (ou, se preferires, o chamamento) à minha vocação há alguns anos, quando me apercebi do vazio que tinha em mim. Na altura, confesso, não me tinha apercebido que tinha este vazio no meu coração, apenas me apercebia da minha insatisfação com a vida, apenas me apercebia da minha tristeza. É muito curioso ver como Deus atua na nossa vida, vai agilizando um e outro encontro, uma e outra oportunidade… E foi isso mesmo que Ele fez comigo, por intermédio de um acontecimento doloroso (a perceção de que o vazio que sentia era a ausência da amizade com Jesus) e da minha mãe. Na voz da minha mãe, que me chamou a ir ao Rumos – já te falei deste retiro? –, Deus chamou-me pelo meu nome.
Pode ser que me perguntes, “mas como é que te apercebeste que O procuravas? Porque é que não achaste que procuravas outra coisa?”. Realmente seria uma boa pergunta… à qual não tenho uma resposta simples. Antes de O procurar, procurei o que me faltava noutros sítios, como, por exemplo, nas amizades com outras pessoas, mas vi que não me satisfaziam, uma vez que sentia que me continuava a faltar algo. Mais tarde, em retrospetiva, vi que o que me faltava era a amizade com Jesus. Eu só me apercebi que O procurava depois de O encontrar, porque foi a Sua amizade que me satisfez, foi a amizade que Ele já me tinha que me fez acordar.
«Não temas porque Eu estou contigo»
Concretizar na nossa vida a loucura de O procurar é, realmente, muito difícil. Eu tive – e tenho – medo do que me pode surgir à frente. Mas graças a Deus que não estou sozinho. Digo-te o que me disseram: «Maria caminha connosco»!
Deus abençoa-nos! E das maiores bênçãos que Deus nos dá é a Sua Mãe. Partilho-te com confiança que se hoje estou aqui a escrever-te esta carta é porque Maria me ensinou a ler e a escrever as palavras da oração. Sempre que me sinto sobrecarregado com a vida, pego no terço, rezo os pai nossos e as ave-marias, e Ela tira-me a carga que eu não consigo carregar. Diz S. Paulo na primeira carta aos Coríntios: «Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças. Pelo contrário, junto com a tentação, também vos dará meios de suportá-la». Com o que a minha experiência permite – e permite muito pouco – garanto-te que não há coisa alguma na vida que não consigamos suportar, porque Deus não o permite! Deus ajuda-nos sempre, se estivermos dispostos a acolher a ajuda que Ele nos envia. Muitas vezes essa ajuda é Nossa Senhora. Por isso te digo: reza o terço todos os dias que conseguires (como Ela própria o pediu em Fátima), porque assim lhe abres a porta para a tua vida. Aqui aproveito para te pedir que rezes por mim, porque muitas vezes falho na oração do terço e bem vejo o quanto isso me dificulta as coisas.
«Se tiveres de atravessar as águas, estarei contigo, e os rios não te submergirão; se caminhares pelo fogo, não te queimarás, e as chamas não te consumirão»
Diante as dificuldades que a vida nos põe à frente, há sempre um pouco que recai sobre nós, quando as conseguimos carregar. E isto porque Deus nos quer iguais a Si, isto é, quere-nos capazes. Repito o que te disse antes: não estás sozinho! Recordo-me do Profeta Daniel, que escreveu, em Daniel 3, sobre os três jovens que estavam no meio de chamas. Eles não se queimaram, quando a vida os lançou ás chamas, porque Deus os protegeu. Já pensaste no stress que é estar no meio de chamas, e o alívio que deve ser ver que estamos bem? Assim devemos ser nós diante as dificuldades.
Antes de me despedir, queria-te pedir desculpa, porque as respostas que tenho para ti não são suficientes. Eu sei que merecias algo melhor, mas é só isto o que eu tenho para te dar. Espero, sinceramente, que te tenham ajudado em algo. Gostava de partilhar contigo uma reflexão que tive ao ler São Paulo:
«Fazei como eu, que, em tudo procuro agradar a todos, não procurando o meu próprio proveito, mas o de muitos, a fim de que se possam salvar»
Não é esta a beleza da nossa vocação? S. Paulo, aqui, escreve “agradar a todos”, mas penso que o que ele quer dizer é agradar as almas de todos, que no fundo é dar-lhes um pequeno empurrão para aprofundarem a amizade que Jesus lhes tem. Já viste a missão que Deus nos confia? Realmente, perante coisa tão grande, como não me sentir pequeno? Peço-te que rezes por mim, por favor, porque a cada dia que passa vejo que Deus me pede algo que só conseguirei concretizar com a tua oração.
Sempre unidos em Jesus, Maria e José.
Um irmão
10 de dezembro de 2022
Em vossas mãos, ó Mãe,
entrego-Vos as contas do meu rosário.
Junto de Vós coloco todo o meu ser.
Sei que a vossos pés
tudo se torna mais claro.
A luz que irradiais é de Deus.
Guardai-nos, Virgem Maria,
os vossos perfumes nos atraem.
Como filhos percorrendo este vale de lágrimas,
confiamo-nos ao vosso maternal cuidado.
Ámen.
Em os 30 Dias com Frei Francisco Maria pretende-se criar um lugar de reflexão e oração para e com o Frei Francisco Maria que, no dia 28 de janeiro de 2023, fará a sua Profissão Solene.
Cada dia, acompanhado por um rosto e um texto concretos, o Frei Francisco Maria fará a sua preparação espiritual para a sua entrega definitiva ao Senhor.
Acompanhado por tantas pessoas, rezará por cada uma e por cada um, de forma a todos incluir nesta caminhada rumo à sua consagração definitiva no Carmelo Descalço.



Inspiremo-nos em S.Paulo…